quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Visita de um irmão ao Sudão do Sul

Visita de um irmão ao Sudão do Sul

A violenta crise que eclodiu em meados de Dezembro 2013 esmagou o mais jovem e o mais pobre dos Estados do mundo. As negociações entre os representantes dos dois campos opostos estagnaram. A tristeza e ansiedade da população são grandes. Em áreas não afetadas pelos combates, a vida continua. Neste contexto, é difícil as pessoas deslocarem-se e programar com antecedência alguns encontros, mas uma visita fraterna permite expressar, concretamente, a solidariedade. Foi o que fez um dos irmãos da fraternidade de Taizé com sede em Nairobi, no vizinho Quénia. Ele escreve:
Evacuados com urgência durante a crise, os funcionários da ONG pouco a pouco foram regressando. O pessoal da igreja e os missionários não abandonaram o campo, alguns partilhando o destino das comunidades onde trabalhavam, nas suas deslocações forçadas e nos seus sofrimentos.
Em Juba, as igrejas transformaram-se em lugares de refúgio. Quando fui lá, muitos tinham deixado as paróquias onde eles se tinham refugiado. Mas no Gumbo, nos arredores de Juba, o padre David, salesiano originário da Índia, assume já há seis meses o seu acolhimento, sem o apoio de instituições internacionais: «Acolhemos 1600 deslocados no nosso campo, sendo que 1.200 são crianças, debaixo de 290 lonas de plástico. Eles chegaram de noite. Os homens ficaram para combater. A cólera afetou-nos, mas agora a situação está sob controlo.»
Creche no campo nº 1 em UN House Juba
A irmã Eugénie trabalha nos dois campos geridos pela ONU em Juba. Ela orienta-me pelo labirinto de vielas e nas passagens entre as cabanas. «A parte mais difícil para os homens é a inatividade. Não há trabalho.» A água do Nilo chega em camiões cisternas e é armazenada em tanques e tratada no local.
Seminaristas no seu dormitório
O Estado dos Lagos, no centro do país, é uma região de floresta e de pântanos. Durante a estação das chuvas, as estradas estão intransitáveis. Demora cerca de três horas para percorrer os 60 quilómetros que separam Rumbek, capital do Estado, de Mapuordit. Nesta grande vila, seminaristas no seu dormitório, no pequeno seminário, em Santa Bakhita vivem 53 rapazes originários das quinze paróquias da diocese. Eles estudam durante o dia na escola secundária nas proximidades. Eles acolheram-me durante três dias durante os quais partilhamos, tendo em conta a sua disponibilidade, momentos de oração e reflexão bíblica.
Daniel Ranthiar é agora por duas vezes pai. Sem ter conseguido concluir o ensino secundário, ele tornou-se vice-diretor do mesmo. No seu estabelecimento, ele acolhe dezoito raparigas de aldeias remotas que assim podem chegar mais facilmente à escola. Mas as condições são muito simples. O menu é o idêntico todos os dias: arroz e feijão vermelho. Sem energia elétrica e sobretudo sem água desde que a bomba do bairro deixou de funcionar. Este é o problema de toda a aldeia, das dezasseis bombas apenas três ainda funcionam. Muitos vão encher as vasilhas à torneira do seminário. Tenta-se recuperar a água da chuva, «mas não está limpa!» Mantém-se as poças de lama onde as mães vêm preencher seu pote de barro com um copo.
A família de Daniel Ranthiar
As irmãs de Loreto de Rumbek colocam toda a sua energia e habilidades ao serviço de uma causa: a educação das meninas. Nos países Dinka é uma emergência e um desafio considerável. As raparigas estão todas destinadas a casarem-se em troca de um dote em bovinos para a qual a família do futuro marido é solicitada. Conforme os pedidos, o pai pode decidir do dia para a noite casar a filha, que a partir desse momento passar a «pertencer» à família do marido, que teve de contribuir para o dote. Sr Orla é diretor do liceu: «Todas as semanas, temos um pedido para retirar uma aluna da escola. Às vezes, conseguimos convencer a família de que é melhor para que todos, deixá-la terminar a escolaridade.»
Turmas de 1º ciclo debaixo das árvores, Loreto – Rumbek
Reunimo-nos para começar uma reflexão e estabelecer o tempo de oração com todas as alunas. Algumas já eram líderes no ano passado e constituíram um núcleo muito motivado. Eles continuaram a preparar orações na escola durante todo o ano. O tema desta semana: «Tornar-nos líderes segundo o Evangelho». Desenvolvemo-lo em três etapas: como ser um líder na oração, no serviço aos outros, na proclamação da Palavra de Deus. Às 14:30 lançamento da reflexão bíblica, seguida dos primeiros 45 minutos de reflexão pessoal e do mesmo tempo para a partilha em pequenos grupos.
Grupo de partilha de Loreto – Rumbek
Um dos especialistas no Sudão do Sul partilha a sua análise sobre a crise atual. «Muitos países conheceram um período turbulento após a conquista da independência: os primeiros Estados Unidos em primeiro lugar... Seria uma constante na história? Esta guerra não é bonita. Os sudaneses norte fazem jogo duplo; oficialmente, eles apoiam Juba, mas permitem também a entrega de armas aos rebeldes assim como o seu ajuntamento no outro lado da fronteira. Na altura da independência há três anos, os problemas do país não foram tidos em conta. Agora tudo está sobre a mesa, não podemos escondê-los mais. Mas isso vai levar tempo.»

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Breve introdução aos Encontros Europeus de Jovens

Paris, Varsóvia, Londres, Lisboa, Roma, Budapeste, Genebra, Barcelona... todos os anos, entre o Natal e o Ano Novo, a Comunidade de Taizé anima um «Encontro Europeu» numa grande cidade da Europa. Estes encontros reúnem muitos milhares de participantes, provenientes de toda a Europa e dos outros continentes.

http://vimeo.com/7532873

terça-feira, 2 de setembro de 2014

BRASIL Um primeiro passo... depois de uma presença de 40 anos.

BRASIL

Um primeiro passo... depois de uma presença de 40 anos.

No Brasil, nas favelas e nos bairros pobres, como aquele onde vivem os irmãos em Alagoinhas, muitos cristãos frequentam uma das múltiplas igrejas evangélicas. Encontram lá apoio e consolação para a semana. Um irmão partilha alguns ecos de uma celebração no dia de Pentecostes de 2014:
Em breve fará 40 anos que estamos no Brasil e no dia de Pentecostes houve, pela primeira vez, uma oração ecumênica na nossa Igreja.
As igrejas pentecostais celebram o Pentecostes todos os dias, não apenas uma vez no ano como as igrejas «históricas». A fé surge todos os dias de novo. Em bairros de periferias como o nosso, o Cristo vivo é anunciado sobretudo pelas igrejas pentecostais.
Neste dia de pentecostes estava conosco uma comunidade impressionante de 40 pessoas, gente «da rua» de Salvador. Eles passaram o fim de semana conosco fazendo retiro. Alguns deles faziam pertenciam a igrejas pentecostais.
Alguns pastores de várias igrejas evangélicas «históricas» vieram encerrar a semana pela unidade conosco aqui. Assim resolvemos convidar também os nossos vizinhos, membros das igrejas pentecostais, para uma oração em conjunto, na tarde de Pentecostes. Os membros sobretudo da Assembleia de Deus, a igreja pentecostal com mais história (105 anos), aceitaram assim pela primeira vez o convite para uma oração conjunta na nossa igreja, pela unidade de igreja. A semana de oração ecumênica termina no Brasil no dia Pentecostes.
Para nós tratava-se de uma oração pela unidade, no entanto durante a celebração apercebi-me de que ninguém de entre os fiéis das igrejas pentecostais falava de unidade, apesar do sermão de um dos pastores pentecostais acerca do texto bíblico 1 Cor 1: «... acaso está Cristo dividido?» Todos louvaram a Deus, pela fé, que nos é comum, a nós os irmãos de Taizé e os «crentes» católicos que se reúnem normalmente na nossa igreja, e aos «crentes» das igrejas pentecostais do nosso bairro, onde representam a grande maioria.
A oração pela unidade transformou-se numa celebração de louvor e testemunho da fé, que nos é comum. Isto é na verdade um enorme passo em frente, a confiança cresceu, contudo o caminho para uma comunidade visível entre todos, os que acreditam em Jesus, esse parece ainda bastante oculto. É preciso acrescentar que normalmente a um fiel de uma igreja pentecostal não é nem permitido ultrapassar a porta de uma igreja católica. Uma igreja católica é, como já no tempo da reforma no século XVI, um templo pagão cheio de imagens de ídolos. Não estou também certo se algum dos católicos que estiveram presentes - eles pertencem na maioria das vezes a bairros socialmente mais favorecidos, alguma vez participou de uma celebração de Pentecostes.
Um primeiro passo... depois de uma presença de 40 anos

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O ANO 2015 EM TAIZÉ


De 1940 a 2015…

O irmão Roger chegou à aldeia de Taizé em Agosto de 1940, no começo da Segunda Guerra Mundial. Com apenas 25 anos, lançou as fundações de uma comunidade que imaginava como uma parábola de comunhão, fermento de reconciliação na família humana:

«Penso que, desde a minha juventude, nunca perdi a intuição de que uma vida em comunidade pode ser um sinal de que Deus é amor; só amor. Pouco a pouco, crescia em mim a convicção de que era essencial criar uma comunidade de homens decididos a dar toda a sua vida e que procurassem sempre compreender-se mutuamente e reconciliar-se: uma comunidade onde a bondade de coração e a simplicidade estivessem no centro de tudo.»
Irmão Roger
Hoje, a Comunidade de Taizé reúne uma centena de irmãos, católicos e de diversas confissões protestantes, oriundos de cerca de trinta países.
O irmão Roger morreu dia 16 de Agosto de 2005, com 90 anos, morto por uma pessoa desequilibrada durante a oração da noite da Comunidade.
Durante todo o ano de 2015, a Comunidade celebra os 75 anos da sua fundação e convida todos a recordar o seu fundador, 100 anos após o seu nascimento e 10 anos passados sobre a sua morte.
Para preparar o ano 2015, o irmão Alois, que sucedeu ao irmão Roger como prior da Comunidade, sugeriu um percurso de três anos. Este percurso procura ajudar a renovar, à luz do Evangelho, o nosso empenho na solidariedade humana.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Testemunho de Taize 2014.

A pedido de várias famílias.
Testemunho de Taize 2014. Primeira vez no meio das montanhas.
Ora, tudo começou como muitos inícios de história de muita gente que vai. Sei lá o que vai acontecer! Fui, segundo a Filomena, de "coração aberto". Um rapaz, no meio de muitos outras pessoas, a procura de algo. Em retrospectiva, fui sem expectativas e talvez por isso venho a abarrotar. Já lá vamos.
Tudo começou na aldeia. Jovens que não sabiam o que fazer. Onde já se viu. "Vamos jogar a aldeia, alinham?" Disse eu. E eles anuíram e estava dado o primeiro passo. Os primeiros amiguinhos. Era o narrador. A minha primeira designação. O narrador. Entretanto, chegados a Taize. Primeira inquietação: onde vou dormir e onde se come. Looool. Mas fico estupefacto com o que havia a minha volta. Natureza em estado puro. Respirei pela primeira vez a calma, a serenidade de tudo e contemplei a beleza. Sem que me apercebesse, o tempo parou naquele momento. 0.00. Um novo começo. Tela em branco. A partir dai, como por isto em palavras? Não sei bem mas darei o melhor. Taize e a prova de que e possível se estiveres aberto a amar e sobretudo disponível a receber. Todos nós, e quase invariavelmente, procuramos algum sentido na nossa vida. Nascemos, crescemos e morremos. No meio disto tudo, experienciamos e e nos dado a conhecer várias realidades mas tudo isto só faz sentido se o fizermos em comunidade. Primeira aprendizagem. Por vezes, sabemos isso mas lá temos a consciência de que e possível a experiência. E com isso, epifinamos. Só fazemos sentido se procurarmos nos outros o sentido da nossa vida. Ninguém pode viver isolado. Melhor, ninguém vive no isolamento porque não se põe na brasa da vida. No contacto com os outros e que nos ficamos a conhecer melhor porque nos testamos no processo. Mas isso requer algo. Coragem de viver e de ir ao encontro dos outros. Temos de arriscar se queremos abraçar a vida no seu todo. E porque Deus nos deu a liberdade de amar e sonhar segundo a vontade de cada um, o processo e igualmente singular. Cada um tem e percorre o seu caminho e porque se respeitar a diferença na unidade, então comunidade e outros não só fazem parte da vida como são imperativos para nos conhecer e procurarmos aquilo que representamos no mundo.atreve-te a viver caramba. Não vivas adormecido. Mais vale cair e doer do que não saber. Da a ti mesmo a oportunidade de fazer descobertas. E com alguma sorte, até epifanizas e ficas a saber um pouco mais de ti. Trai-te a ti mesmo se isso te libertar. Retira da equacao aquilo que te retrai e acrescenta o que te move. Porque trair e sair da fila e partir para o desconhecido. Espero que gostes de dançar, porque quando quando abres a porta por onde a alma sai e se liberta... Atreve-te.
Segunda aprendizagem. Simplicidade. Adorei tudo o que via. Pode parecer clichê e mais um que anda para aqui a fazer utopia, mas aquele lugar tornamos-nos mais sensiveis ao que nos envolve. E de alguma forma, confirmamos que somos mais do que a nossa própria realidade. Formas, cores, aromas. E tudo isto e natural. Natural e simples. Não e preciso saber mais. Aprendi com isto que se não racionalizarmos, as vezes vemos as coisas de outro prisma. Damos voltas de vários graus mas por mais pequena que seja, mudamos algo. No que me respeita, voltei ao básico. Back to basics. E com isso, dei umas valentes cambalhotas. Estou a assimilar ainda o que isso significa. Ou então não. Vamos ver no que da 
Agora o que ficou no fim? Não vos contarei toda a experiência, há pessoas e momentos que nos marcaram de formas que transcendem a forma como percebemos e percepcionamos. Mas sabemos que operaram em nos porque me tocaram. De qualquer forma, agradeço tudo e todos que ficaram na foto no fim. A todos os que me acompanharam, obrigado por me acolherem nos vossos braços mesmo quando não vos chamava. Em braços de muitos, chorei em pranto. E não me incomoda partilha-lo, sou humano e humanista e da mesma forma que rimos, zangamos, também choramos e não devemos esconder. Tudo faz parte da experiência humana. Abraça tudo. Nao és menor e nao tira nada, acrescenta se tiveres disposto a receber. E a maior aprendizagem de todas. Aprender a receber. Agradeço a comida de guerra que comemos. Agradeço os momentos de oração em comunidade, por todos aqueles que acompanharam nesta jornada, faces que procuravam, que oravam, que amavam, que iluminavam os outros. Cada um de nos e luz de si e dos outros. Somos os outros elevado ao quadrado e os outros raiz quadrada de nos. Agradeço a nova vida que em mim nasceu. Por fim, agradeço a minha família. Eles sim, são o derradeiro amor, confirmação e luz. Já escrevi de mais. O essencial ficou. Há mais que ficou. Mas dou vos a palavra também.
Ah outra coisa, reganhei algum brilho nos olhos. Foi o que de melhor ganhei. Olhos que brilham e que acreditam.
Sim, estou mais parvo do que e costume, mas até e uma parvoíce fixe. Sou portanto mais do que aquilo que era.
Neste momento, prometo, eu sou infinito. Sim, porque quem busca o infinito, só tem de fechar os olhos.

Vitor Teixeira

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Os jovens e a oração em Taizé


Um dos irmãos reflecte sobre a participação dos jovens na oração em Taizé e sublinha três dimensões da oração que lhe parecem ecoar na procura dos jovens.
Três vezes por dia, pára tudo na colina de Taizé: o trabalho, os estudos bíblicos e as partilhas em pequenos grupos. Os sinos chamam toda a gente para rezar na igreja. Centenas, por vezes milhares de jovens de diversos países do mundo, rezam e cantam com os irmãos da Comunidade. Os cânticos, entoados repetidamente, entram facilmente na memória e traduzem, em poucas palavras, uma realidade fundamental. Seguidamente, um texto bíblico é lido em várias línguas. No centro de cada oração comunitária, um longo período de silêncio é um momento único de encontro com Deus.

Nós, os irmãos, ficamos muitas vezes admirados com a capacidade demonstrada pelos jovens ao ficarem na nossa igreja, por vezes durante horas, em silêncio ou entoando cânticos meditativos. Frequentemente, até os próprios jovens se surpreendem com o quanto rezam em Taizé. Quando perguntamos aos grupos que encontramos no fim da sua estada aquilo que mais os marcou, a resposta é rápida e sem hesitação: «a oração!» E, contudo, muitos daqueles que falam de forma tão entusiasta da sua experiência de oração parecem ser, à primeira vista, os neófitos. Isso é o mais impressionante.

Nós próprios, mais uma vez, ficamos surpreendidos com isso. O que poderá ajudar os jovens a permanecerem verdadeiramente abertos a um diálogo interior na oração? Como os poderemos ajudar a descobrir que, mesmo sem saberem rezar, mesmo sem saber o que pedir ou o que esperar, Deus já deposita em nós uma espera de comunhão?

Ainda que não possa responder exactamente a estas questões, posso, com efeito, sublinhar três dimensões da oração em Taizé, que me parecem ecoar na procura dos jovens: trata-se de uma oração acessível, meditativa e feita a partir do coração.


Uma oração acessível
A oração da Comunidade modificou-se muito ao longo dos tempos e caminhou no sentido de uma simplificação. O irmão Roger estava constantemente atento para que nada na oração comunitária parecesse inacessível. Para ele, ler um texto muito longo ou com vocabulário muito complicado poderia dificultar esta relação de amor que a presença do Espírito Santo oferece na oração.

A exigência de tornar a experiência interior acessível a um grande número de pessoas explica esta maneira de rezar com cânticos simples e meditativos. Não que tudo tenha sido adaptado para os jovens. Os cânticos de Taizé, em si, não são canções ao estilo dos jovens. Creio que são cânticos enraizados na tradição monástica, com o vocabulário dos salmos e veiculados por uma longa tradição de oração cantada, que começa no seio das primeiras comunidades de Israel. Destaca-se, fundamentalmente, pelo seu carácter meditativo e repetitivo. No fundo, a Comunidade começou a cantar os salmos e continua actualmente a fazê-lo. Mas, mais do que entoar todo o salmo, ficamos num versículo, meditamo-lo em conjunto e deixamo-lo ressoar e encontrar em nós as experiências que iluminará.

Aquilo que toca os jovens em Taizé talvez seja o facto de sentirem que nos esforçamos por transmitir, de uma forma muito simples, uma expressão da Fé, sem no entanto a aplanar ou colorir. Eles sentem efectivamente que a oração que lhes é proposta não é apenas a tradução na sua língua de uma realidade que lhes é estranha, mas é, essencialmente, um convite a uma procura que os afasta de si próprios, colocando na sua boca palavras de outros tempos, que os obriga gentilmente a descentrarem-se de si próprios, num despojamento total. Os jovens sentem isso de uma forma especial. Distinguem facilmente os discursos cheios de si próprios daqueles que criam espaço ao pôr de lado algumas certezas. Talvez sintam que, enquanto Comunidade e adaptando a nossa oração à sua presença, quisemos alargar o nosso caminho, estendendo a todos a intimidade que desejamos viver com Deus. Por isso, é importante que o cântico seja entoado continuamente por todos e não apenas pelos solistas ou coralistas, que deixariam apenas o refrão para a assembleia.


Uma oração meditativa
A oração com os cânticos de Taizé também é uma meditação bíblica. No dia de Todos os Santos, fiquei muito surpreendido quando, na nossa igreja cheia de estudantes de escolas secundárias francesas, 2500 jovens cantavam: «Que eu exulte e rejubile no teu amor!» Trata-se da letra de um dos últimos cânticos escritos em francês. Creio que, através da repetição de um ou dois versículos, o canto lhes dá acesso directo à palavra de Deus e lhes permite interiorizar, incorporar a beleza e mesmo a «aspereza» das palavras bíblicas. E, posteriormente, ao lerem as palavras que já conhecem de cor, alguns textos são iluminados por uma luz inesperada.

Por vezes pergunto-me se a nossa maneira de cantar não é como que uma breve introdução à «lectio divina», a essa leitura atenta da palavra, que abre espaço para deixar ressoar o texto em todas as suas dimensões. Os judeus falam em ruminar a Torah. Um dos rabinos citados numa recolha de textos judaicos dos primeiros séculos depois de Cristo diz: «Vira e revira a Torah em todos os sentidos, pois ela encerra todos os ensinamentos: apenas ela te dará a verdadeira sabedoria. Concentra-te neste estudo e nunca o abandones. Não saberás fazer nada melhor.» (Mishna Abot 5, 25). Em Taizé, a repetição dos cânticos faz eco neste ruminar, nesta respiração da Palavra.


Uma oração do coração
Um outro aspecto que me sensibiliza bastante, quando oiço os jovens falar da oração, é a possibilidade que o longo momento de silêncio, a meio da liturgia, lhes dá uma ocasião para se concentrarem no que de mais profundo os habita: «fazer um balanço», «escutar o coração», «reflectir sobre os seus problemas», «esvaziar a mente», «fazer uma pausa», «fazer uma retrospectiva de si mesmos», «deixar cair as máscaras»... eles sabem bem descrever o que o silêncio lhes permite fazer. Rezando juntos, o silêncio não os assusta. Pelo contrário, são muitos os dizem que, na primeira vez, os dez minutos parecem muito longos, mas depois «voam».

Pergunto-me se o que eles tentam exprimir não corresponde àquilo que o Oriente cristão chamou a «oração do coração» e também «manter-se vigilante com o coração»: «Vela com todo o cuidado sobre o teu coração», diz o livro dos Provérbios, «porque dele procedem as fontes da vida.» (Pr 4,23)

O coração é, na Bíblia, o centro da pessoa humana, um ponto fulcral para onde convergem todas as energias. Para os monges da tradição oriental, a oração com a repetição de uma curta frase, sob o ritmo da respiração, é a oração do coração. Ou seja, trata-se do esforço de unificação de todas as energias, para as fazer passar pelo fogo do coração num cadinho do amor. Unificando os sentimentos e as energias, do coração brota uma intenção recta, como uma água purificada. A oração como vigilância, despertar e escuta permite uma concentração, re-centrando os próprios desejos para os sincronizar com o amor. A oração é esta preparação do coração à vigilância que o amor exige em diversas situações.

Através do canto e do silêncio, os jovens descobrem que são capazes de renovar o seu coração; de um coração simples, no sentido original da palavra, um coração sem «dobras», um coração aberto. Os primeiros cristãos falavam da oração como um força para fazer derreter a «gordura espiritual» que pesa nos nossos pensamentos e desejos. A imagem das dobras é igualmente sugestiva: um coração sem dobras é um coração despojado do supérfluo e atento ao essencial dos seus desejos, para dessa forma descobrir claramente como Deus o chama a ser criador. «Todo o desejo que, dentro de nós, se dirige a Deus, constitui desde logo uma oração. O teu simples desejo já é oração. Há uma oração interior que nunca se cala: o teu desejo. Se queres rezar, nunca pares de desejar.» É o comentário de Santo Agostinho ao Salmo 37.

Sem entraves, aberto a uma certa transparência, o coração aprende a amadurecer decisões e intuições, a definir as linhas de um modo de vida. E a discernir também situações delicadas e impasses. É nesse sentido que eu espero que os jovens compreendam que «a oração não nos afasta das preocupações do mundo. Pelo contrário, não há nada de mais responsável que a oração: quanto mais vivermos de uma oração muito simples e humilde, mais somos levados a amar e a expressar esse amor através da nossa vida.» Um futuro de Paz, irmão Roger, Carta de 2005.

Por estas três dimensões da oração que tentamos partilhar com os jovens, «despojamento» de si próprios, «ruminar» da Escritura e «escuta vigilante» do coração, nós gostaríamos muito de lhes tornar perceptível a certeza que o irmão Roger nos deixou na sua última carta por acabar: «Deus acompanha-nos mesmo na nossa solidão mais insondável. Ele diz a cada um de nós: ‘És precioso aos meus olhos, eu estimo-te e amo-te.’ Sim, Deus só pode dar o seu amor, aí se encontra todo o Evangelho.»

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Notícias das pequenas fraternidades provisórias

«É difícil acreditar que já passou mais de metade do tempo da nossa estadia no Porto. Sentimo-nos abençoadas por encontrar pessoas entre os 2 e os 87 anos que parecem estar verdadeiramente felizes por nós aqui estarmos, mesmo se na verdade é um privilégio para nós poder ver um pouco do mundo através do olhar delas.
 
Temos a impressão que as pessoas se sentem tocadas pela nossa decisão de deixar por um tempo as nossas vidas quotidianas para conhecermos esta paróquia e este bairro, para vivermos e rezarmos com eles de forma um pouco especial, para interagirmos aonde legiões de turistas passam sem parar e para descobrirmos o quanto têm para dar e partilhar aqueles que são materialmente desfavorecidos.
 
Mesmo se a barreira da língua é por vezes um desafio, com muitos erros de gramática e algumas frases em «portunhol», a linguagem do amor, do serviço e da dedicação parece ser bastante apreciada.
 
Temos a sorte de estar envolvidas em diferentes áreas de trabalho do centro social da paróquia. Acompanhamos as crianças mais novas ao parque infantil e verificamos que, com a excitação e o entusiamo, não se esquecem de guardar o chapéu na cabeça. Apoiamos o trabalho com os sem-abrigo (um deles falou-nos do gosto que tem em tocar guitarra e nós fizemo-lo descobrir os cânticos de Taizé, que ele muito aprecia!) Fazemos ginástica com pessoas de idade e acompanhamos algumas velhinhas adoráveis, que têm dificuldade a andar, a ir tomar café ou a visitar familiares.
 
E também organizamos três orações por dia: uma para nós as três, de manhã, outra mais breve ao meio-dia, com as pessoas com quem trabalhamos, e uma ao fim da tarde na igreja de São José das Taipas, onde vêm pessoas da paróquia mas também de outras zonas do Porto que parecem apreciar o facto de lhes trazermos um pouco de Taizé (com os ícones, os livros de cânticos, o ritmo de oração e, assim o esperamos, muitas outras coisas…)»
Jeanne, Judith e Yolanda, no Porto

domingo, 3 de agosto de 2014

A coragem de ser criador de paz

MEDITAÇÃO DO IRMÃO ALOIS

A coragem de ser criador de paz

Quinta-feira, 31 de Julho de 2014

Em cada semana deste Verão, nós, os irmãos, sentimo-nos felizes por acolher tantos jovens na nossa colina. A grande diversidade de países e a solidariedade que se cria entre todos suscitam uma admiração constante.
Há uma imensa alegria que se manifesta entre vós. Contudo, sei que cada um e cada uma de vós carrega também um fardo. Para uns são sofrimentos pessoais, para outros um futuro que parece bloqueado, outros são habitados pela angústia dos conflitos, por vezes armados, que reinam nos seus países.
Na semana passada, esteve aqui presente um grupo de Palestinianos de Belém, partilhando connosco a sua pena. E esta semana, encontra-se entre nós uma mulher palestiniana.
Sentimo-nos também tocados por estarem connosco, cada semana, jovens ucranianos e, ao mesmo tempo, jovens russos. A uns e a outos, quero dizer: saibam que a vossa presença é importante pra nós e que, nos nossos corações, estamos muito próximos de todos vós.
É importante para nós cantar frequentemente, na oração comum, um cântico em eslavo eclesiástico, a língua litúrgica dos ortodoxos russos, e, também, cantar a versão ucraniana do cântico «Laudate Omnes Gentes», «Slavite vsi narodi».
Estar juntos, escutarmo-nos mutuamente, confirma em todos nós esta profunda convicção: em todos os países existem homens e mulheres de paz.
Reunimo-nos todos três vezes por dia para a oração comum. É Cristo que nos reúne e nos oferece a sua paz. Se não começamos por receber esta paz no nosso coração, como poderemos ser criadores de paz ao nosso redor?
Se não acolhemos a paz de Deus, será possível que as feridas, por vezes terríveis, sejam curadas? Penso nas crianças feridas ou mesmo mortas, nos incontáveis refugiados em todo o mundo.
Incansavelmente, Cristo Ressuscitado que, sozinho, venceu o ódio, a violência e a morte, Cristo Ressuscitado diz-nos: «A paz esteja convosco». É ele a nossa consolação. É ele que nos comunica a coragem de sermos criadores de paz. «Felizes os pacificados, porque serão chamados filhos de Deus», diz também Jesus.
Escutar Cristo conduz-nos à escuta dos outros. Para sermos criadores de paz, tomemos o tempo de compreender o ponto de vista dos outros. Assim, os nossos olhos abrir-se-ão para ver sinais de esperança, mesmo em situações difíceis. E somos impelidos a colocarmo-nos próximos dos que atravessam provações. 
Fazer a paz começa nas nossas relações de todos os dias com os que nos estão próximo. Somente podemos almejar ser artesãos da paz na sociedade e nos graves conflitos de hoje em dia se o somos, à partida, nas relações com os que nos rodeiam.
Desejo imensamente que todos vós que vieram em peregrinação a Taizé possam aqui depositar uma porção dos vossos fardos, os fardos pessoais ou os do vosso país. E que possam acolher em vós a paz de Cristo.
Amanhã, ao serão, teremos a oração à volta da cruz, que nos recorda que Cristo aceita carregar tudo. Foi para isso que veio. O Evangelho diz-nos que ele é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
As situações inextrincáveis de ódio e violência que vemos no mundo não são um apelo a aprofundar a nossa confiança em Cristo? Não é nesta profundidade que devemos colocar a coragem de nos tornarmos mulheres e homens de paz?
Sem esta confiança sempre renovada em Cristo, não será possível interromper a espiral de violência que se alimenta de argumentos realmente ou aparentemente justos. É esta confiança em Cristo que nos permite acreditar que as reconciliações são possíveis.
Esta sexta-feira, dia 1 de Agosto, às 16h, um sino soará durante três minutos. O mesmo acontecerá em todas as cidades e aldeias de França. Trata-se do centésimo aniversário do início da Primeira Guerra Mundial em 1914. Durante o tempo que soar o sino, onde quer que estejamos, interromperemos a nossa actividade para permanecer em silêncio e rezar pela paz.
Entre nós, encontra-se uma mulher verdadeiramente comprometida num trabalho de solidariedade com refugiados na Europa. Chama-se Amaya e viveu largos anos no Camboja. De momento, trabalha no Serviço Jesuíta a Refugiados em Roma. Dir-nos-á algumas palavras. Antes, uma criança, Julie, dirá o nome dos povos que se encontram aqui esta noite e as crianças distribuirão flores.

Temos flores para os oriundos do Chile, Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Porto Rico, México, Estados Unidos e Canadá.
Para os da Nova Zelândia e Austrália.
Para os da Rússia, Finlândia, Suécia, Dinamarca e Noruega.
Para os da Bielorrússia, Letónia, Lituânia, Polónia, Alemanha, Holanda, Bélgico, Reino Unido e Irlanda.
Para os da Ucrânia, Eslováquia, Hungria, Áustria, República Checa, Eslovénia, Suíça e França.
Para os da Roménia, Sérvia, Croácia, Bósnia-Herzegóvina, Grécia, Itália, Espanha e Portugal.
Para os da Coreia, Japão, China, Hong Kong, Taiwan, Camboja, Vietname, Indonésia, Timor Leste, Índia, Bangladesh, Líbano, Palestina e Turquia.
Para os de Madagáscar, África do Sul, Burundi, Tanzânia, Quénia, Uganda, Chade, Benim, Burquina Faso, Gana, Togo e os oriundos do Egipto.

Irmão Alois: Esta noite, ao prosseguirmos a oração com os cânticos, rezaremos por todos os refugiados espalhados pelo mundo, pelos que morrem no mar, pelas vítimas de conflitos armados ou de catástrofes naturais, e ainda pelos que são perseguidos. E escutamos Amaya:
Amaya: Tenho um amigo em Damasco, na Síria. Todos os dias, ele ouve os bombardeamentos no caminho para o trabalho. Diz-nos: «Se os cristãos desaparecerem do Médio Oriente, será como se desaparecesse uma fonte de água viva. Poderá modificar a identidade do cristianismo no mundo inteiro.»
Perante tais desafios, como podemos manter a esperança? Em Alep, jovens cristãos e muçulmanos trabalham juntos para levar alimento às famílias em dificuldade. Este serviço em conjunto dá um forte sinal de que a reconciliação é possível.
O meu amigo sírio guarda, igualmente, viva a esperança de que a paz na Síria é possível. Quando nos sentimos tentados a abandonar a esperança, a sua alimenta a nossa.
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terça-feira, 29 de julho de 2014

Uma «pequena fraternidade provisória» no Porto

VERÃO DE 2014

Uma «pequena fraternidade provisória» no Porto

De 21 de Julho a 15 de Agosto, três jovens estão a fazer a experiência de viver numa «pequena fraternidade provisória» no Porto.
A paróquia de Nossa Senhora da Vitória acolheu o desafio da Comunidade de Taizé para receber uma «pequena fraternidade provisória». A Jeanne, a Judith e a Yolanda, de nacionalidades respectivamente francesa, alemã e espanhola, estão a fazer voluntariado no centro social da paróquia, numa vida de partilha e simplicidade ritmada por três orações comunitárias diárias.
De segunda a sexta-feira às 18h30, a oração é aberta a todos os que querem participar, na Igreja de São José das Taipas.
Quando têm disponibilidade, as jovens participam também em actividades juvenis noutras paróquias. Sexta-feira 25 de Julho puderam participar numa oração em Espinho, na praia:
Estas «pequenas fraternidades provisórias» inserem-se no programa que a Comunidade propõe para celebrar os 75 anos da sua fundação e o centenário do nascimento do seu fundador, o irmão Roger. São etapas da preparação do «Encontro por uma nova solidariedade», que terá lugar em Taizé de 9 a 16 de Agosto de 2015.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Novidades

fr. Roger
Não pressentes a felicidade?


Pressens-tu un bonheur? in Portuguese
Paulinas Editora, Portugal, 2014, 104 p, ISBN: 9789896733919
O Irmão Roger chegava sozinho, em 1940, à pequena aldeia de Taizé. Tinha apenas 25 anos. Sessenta e cinco anos mais tarde, o fundador da Comunidade de Taizé descreve aqui algumas etapas do seu itinerário e da sua reflexão, desde lembranças da infância até ao seu encontro com a Madre Teresa, passando pelos contactos que teve com os papas João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, as suas visitas aos países da Europa de Leste durante a Guerra Fria, as vivências entre os deserdados dos países do Sul e o acolhimento dos jovens em Taizé. A sua meditação lembra as inúmeras diligências para estabelecer sinais de comunhão e de paz, particularmente nos lugares de fratura da humanidade.

Senhor, eu confio no teu amor


Seeds of Trust in Brazilian Portuguese
Paulinas Brasil, 2013, 240 p, ISBN: 9788535634617
O objetivo deste livro é favorecer o crescimento de nossa confiança em Deus e em seu amor, superando esses entraves através de uma caminhada que vai desde a descoberta de um amor maior do que tudo que se possa imaginar, passando pelas fontes libertadoras do perdão e pelas veredas da cura interior, até reencontrar as raízes da esperança de modo a seguirmos com discernimento e aprendermos a amar sempre mais intensamente. Além do texto bíblico, cada uma das breves meditações é acompanhada de perguntas para a reflexão, de um canto da comunidade de Taizé e de uma oração escrita por Irmão Roger.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Pequenas fraternidades provisórias

Notícias das pequenas fraternidades provisórias

Até ao Verão de 2015, pequenos grupos de jovens vivem em comunidade durante algumas semanas, no coração de um bairro ou de uma aldeia, para aí dar testemunho do Evangelho e partilhar as alegrias e as tristezas dos habitantes. A vida é ritmada por três orações comunitárias diárias, trabalho pastoral e social com as comunidades cristãs locais, visitas a pessoas isoladas ou em situação de sofrimento, animação de orações abertas a todos e de encontros de jovens.
Nesta página, actualizada regularmente, será possível acompanhar as notícias destas pequenas fraternidades provisórias.

A vida em Taizé: Relatos e testemunhos

2014

A vida em Taizé: Relatos e testemunhos

Ao longo de 2014, esta página será actualizada regularmente com notícias da vida na colina.

Junho: Começam os grandes encontros de Verão

Desde meados de Junho, o número de jovens acolhidos em Taizé tem aumentado regularmente, de semana em semana. Os encontros são bastante internacionais, marcados por uma grande diversidade de origens. Voluntários de todo o mundo também têm chegado nestas últimas semanas. Há novos ateliês propostos este Verão, alguns deles animados por pessoas que passam por Taizé. Entre elas, Christoph Benn, do Fundo Mundial de Luta contra a SIDA, o eurodeputado Philippe Lamberts ou médicos da região à volta de Taizé. O bispo emérito de Argel, D. Teissier, falou sobre diálogo inter-religioso.
Entre as visitas de representantes das Igrejas, notou-se a presença do Presidente da Igreja Metodista do Benim, vários delegados de pastoral juvenil de países africanos, o arcebispo de Dijon (França), o bispo de Magdeburg (Alemanha), vários bispos da Igreja de Inglaterra, cinco padres ortodoxos da Bielorrússia, que acompanhavam um grupo de jovens.

Simon (Allemagne)
Participei no grupo de reflexão sobre a nova solidariedade durante a minha semana em Taizé. Para mim, foi uma experiência muito gratificante e continuo agora a viver destas reflexões na «vida real». Na outra visita que tinha feito a Taizé tinha corrido tudo bem, mas de regresso a casa deixou de haver orações comunitárias e introduções bíblicas, de forma que as «impressões de Taizé» não me pareciam aplicáveis à minha vida quotidiana. Desta vez, continuo a pensar muito na semana que passei em Taizé e nos temas abordados no grupo de reflexão. E parece-me que nalguns aspectos os meus hábitos começaram a mudar.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Opinião de Luís Sousa Lobo Ex Reitor da Univ. Nova de Lisboa 2004

OPINIAO

A experiência de Taizé

por
Luís sousa lobo
Engenheiro
Ex-reitor da Universidade Nova de Lisboa21 dezembro 2004

OPapa João Paulo II, quando visitou Taizé, deixou uma imagem «Passa-se por Taizé como por uma fonte. O viajante pára, mata a sede e prossegue a viagem». Mas o que há afinal de especial nessa comunidade, localizada numa pequeníssima aldeia da Borgonha, que desafia a lógica urbana e o ritmo trepidante da civilização moderna? Porque é que tantos jovens, ano após ano, década após década, geração após geração, continuam aos milhares a acorrer a Taizé, para uma semana de reflexão e vida em comum? E porque virão a Lisboa dentro de dias 40 mil jovens de toda a Europa, respondendo ao apelo da Comunidade de Taizé, para o Encontro Europeu?
Não é fácil responder em poucas palavras, mas vou procurar dar a minha explicação, de maneira sintética, recorrendo, por comodidade, a palavras-chave.
Acolhimento, sem proselitismo. Em Taizé há um sentido de acolhimento e de respeito pelos visitantes. Não há proselitismo; ninguém está a aproveitar para doutrinar. Pelo contrário, logo à chegada, são os visitantes que indicam o programa que querem escolher para marcar o ritmo dos seus dias em Taizé, que pode ir desde a participação em grupos de discussão, estudos bíblicos, encontros intercontinentais até ao retiro pessoal em silêncio. Neste caso podem pedir um acompanhamento de um irmão. Mas o programa é livre.
O único traço comum dos programas são os três momentos de oração em comum, de manhã, ao meio-dia e à noite. Mas também aí há, sobretudo, o apelo à reflexão pessoal - não há grandes homilias ou discursos apologéticos. Não faz parte da cultura de Taizé. O acolhimento em Taizé significa, sobretudo, um grande respeito por cada pessoa, pelo seu percurso de vida. Lançam-se pistas de reflexão, não se dão respostas, mas há uma grande disponibilidade para ajudar a encontrar respostas para cada um. É isto que observo sempre que visito Taizé e que acho o traço principal da sua cultura de acolhimento.
Sobriedade, bom gosto com simplicidade. Ao longo dos anos o espaço público em Taizé foi-se alargando e adaptando ao número crescente de visitantes. Hoje em dia, nas épocas altas (Páscoa e meses de Verão), os visitantes atingem os 6000 em cada semana, com chegada habitual ao domingo à tarde e partida no domingo seguinte pela manhã. Em Taizé, dentro e fora das casas, tudo é bonito e simples. Há uma harmonia que sabe bem. Na loja podem comprar-se lembranças de arte, de música, de peças de uso doméstico ou livros, em que o estilo simples de Taizé se reconhece em tudo. A comunidade não aceita doações nem heranças, e é com esta actividade que equilibra o orçamento.
Organização eficiente, mas quase invisível. Como é possível juntar 30 ou 40 mil jovens durante cinco dias numa cidade europeia sempre diferente, ou 6000 jovens com rotação semanal em Taizé, sem uma logística pesada e cara? O segredo é uma organização que se foi apurando ao longo dos anos, com a intermediação de voluntários, jovens que, em geral no final dos seus estudos, dão um tempo da sua vida para ajudar os outros através do acolhimento que se vive em Taizé. Além disso, entre cada revoada de visitantes, muitos jovens disponibilizam-se, enquadrados pelos referidos voluntários, para executarem as tarefas de apoio indispensáveis nas estruturas de alimentação, limpeza, apoio médico, etc. Esta capacidade de auto-organização fica em segundo plano, quase invisível, mas as condições de acolhimento e de apoio de todos ficam asseguradas. Tudo anda sobre rodas.
Ecumenismo prático, discreto. O sentido ecuménico é central nesta comunidade, pois constituiu o principal elemento motor para o fundador, o Irmão Roger, e o grupo que no final dos anos 40 se lhe juntou. Este ecumenismo surpreende os que põem ênfase nas diferenças entre as Igrejas cristãs. Os irmãos acabam por falar pouco de «ecumenismo», palavra talvez demasiado técnica, pondo o acento sobre a busca de caminhos de compreensão e de reconciliação nos locais onde cada um vive.
Os irmãos vêm de tradições cristãs diferentes, mas fazem os mesmos votos. Os visitantes pertencem também a tradições cristãs diferentes, ou a nenhuma, mas juntam-se com naturalidade na mesma liturgia, nas mesmas orações. Em Taizé fica óbvio que o que une as Igrejas cristãs é muitíssimo maior do que o que as divide. Ainda que o pouco que divide seja tantas vezes o que é «posto na lapela» como marca distintiva. Mas esse «clubismo» em Taizé quase desaparece. O estilo dos cânticos, a presença dos ícones, o apelo aos traços mais profundos da espiritualidade cristã constituem em Taizé uma plataforma em que todos os cristãos se sentem à-vontade - certamente com algum depuramento em relação às fórmulas a que estarão habituados. Mas essa é uma roupagem a que todos se adaptam sem dificuldades, e que acentua o sentido de universalidade e a esperança de mais paz para a Humanidade.
Sentido de Deus pelo silêncio interior. A busca de Deus ou do sentido da vida, em Taizé, é marcadamente pessoal, apesar de transparecer que a fé não é individualista, é para ser vivida com outros. Há, contudo, um grande respeito pelo outro, não havendo grandes sensacionalismos ou emoções públicas. Tudo se passa no silêncio e no coração de cada um. A liturgia e o lugar ajudam. Tudo simples e despojado. Cânticos simples e repetitivos, um pouco ao gosto das Igrejas orientais, que ajudam à reflexão interior, intercalados por períodos de silêncio longos, com durações impensáveis em qualquer das nossas celebrações - mas que é um elemento essencial no ritmo de Taizé. A procura de Deus e do sentido da vida faz-se no encontro de cada um consigo próprio, na reflexão e no silêncio, e nos encontros na partilha, na entreajuda, na descoberta de outras culturas, de outras vocações, de outras realidades. Com disponibilidade para ouvir, compreender, descobrir.
É talvez por tudo isto que, em muitas universidades nos EUA e diversos outros países, os jovens usam as «noites de oração» ao estilo de Taizé como a forma conveniente para trazer ao gosto pela vida interior os jovens que o desejem. A minha avaliação é que o espírito da Comunidade de Taizé vai muito para além da sua raiz ecuménica. Dá um exemplo da busca do sentido da vida, neste caso na perspectiva cristã, de uma forma em que o fanatismo não só não está presente como perde o sentido. A esperança no futuro e a paz encontraram em Taizé uma linguagem bastante universal.
Esta é uma contribuição inestimável no mundo de hoje. Entre os irmãos há ingleses e alemães, mas também indianos e coreanos. Há norte-americanos e canadianos, mas também dois portugueses. Estão lá presentes, a todo o tempo, os problemas do mundo. E a visão do mundo que Taizé transmite é uma visão solidária, de paz e de esperança.
Se a esperança é a marca da juventude, percebe-se porque é que tantos, sobretudo jovens, vão a Taizé «como se vai a uma fonte para matar a sede e prosseguir a caminhada».
Não sei se o meu retrato de Taizé ficou muito incompleto, esquemático ou redutor. O melhor mesmo, para quem não conheça, é experimentar. E a partir do próximo dia 28, durante cinco dias, Taizé está connosco em Lisboa - uma oportunidade rara.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Peregrinar com Taizé

Encontros em Taizé

«Ver tantos jovens na colina, juntos numa grande diversidade, é algo de muito festivo. Dá-nos a grande esperança de que é possível uma humanidade em paz.»
Irmão Alois, durante um encontro na igreja da Reconciliação

Textos bíblicos com comentário

Textos bíblicos com comentário

Estas meditações bíblicas são sugeridas como meio de procura de Deus no silêncio e na oração, mesmo no dia-a-dia. Consiste em reservar uma hora durante o dia para ler em silêncio o texto bíblico sugerido, acompanhado de um breve comentário e de algumas perguntas. Em seguida constituem-se pequenos grupos de 3 a 10 pessoas, para uma breve partilha do que cada um descobriu, integrando eventualmente um tempo de oração.
2014

Julho

Job 1,1-21: Acreditar em vão?
Havia, na terra de Uce, um homem chamado Job. Era um homem íntegro e recto, que temia a Deus e se afastava do mal. Tinha sete filhos e três filhas. Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas e uma grande quantidade de escravos. Este homem era o mais importante de todos os homens do Oriente. Os seus filhos costumavam ir, cada dia, à casa uns dos outros, para fazerem banquetes, e mandavam convidar as suas três irmãs para comerem e beberem com eles. Quando acabava a série dos dias de festim, Job mandava chamar os filhos para os purificar e, levantando-se na manhã seguinte, oferecia um holocausto por cada um deles, porque, dizia ele: «Talvez os meus filhos tenham pecado, ofendendo a Deus no seu coração.» Assim fazia Job todas as vezes. Um dia em que os filhos de Deus se apresentavam diante do Senhor, o acusador, Satanás, foi também junto com eles. O Senhor disse-lhe: «Donde vens tu?» Satanás respondeu: «Venho de dar uma volta ao mundo e percorrê-lo todo.» O Senhor disse-lhe: «Reparaste no meu servo Job? Não há ninguém como ele na terra: homem íntegro, recto, que teme a Deus e se afasta do mal.» Satanás respondeu ao Senhor: «Porventura Job teme a Deus desinteressadamente? Não rodeaste Tu com uma cerca protectora a sua pessoa, a sua casa e todos os seus bens? Abençoaste o trabalho das suas mãos, e os seus rebanhos cobrem toda a região. Mas se estenderes a tua mão e tocares nos seus bens, verás que te amaldiçoará, mesmo na tua frente.» Então, o Senhor disse a Satanás: «Pois bem, tudo o que ele possui deixo-o em teu poder, mas não estendas a tua mão contra a sua pessoa.» E Satanás saiu da presença do Senhor.
Ora, um dia em que os filhos e filhas de Job estavam à mesa, e bebiam vinho na casa do irmão mais velho, um mensageiro foi dizer a Job: «Os bois lavravam e as jumentas pastavam perto deles. De repente, apareceram os sabeus, roubaram tudo e passaram os servos a fio de espada. Só escapei eu para te trazer a notícia.» Estava ainda este a falar, quando chegou outro e disse: «Um fogo terrível caiu do céu; queimou e reduziu a cinzas ovelhas e pastores. Só escapei eu para te trazer a notícia.» Falava ainda este, e eis que chegou outro e disse: «Os caldeus, divididos em três grupos, lançaram-se sobre os camelos e levaram-nos, depois de terem passado os servos a fio de espada. Só eu consegui escapar, para te trazer a notícia.» Ainda este não acabara de falar, e eis que entrou outro e disse: «Os teus filhos e as tuas filhas estavam a comer e a beber vinho na casa do irmão mais velho quando, de repente, um furacão se levantou do outro lado do deserto e abalou os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens. Morreram todos. Só eu consegui escapar, para te trazer a notícia.» Então, Job levantou-se, rasgou as vestes e rapou a cabeça. Depois, prostrado por terra em adoração, disse: «Saí nu do ventre da minha mãe e nu voltarei para lá.
O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; bendito seja o nome do Senhor!» Em tudo isto, Job não cometeu pecado, nem proferiu contra Deus nenhuma insensatez. (Job 1, 1-21)
Porque sofremos? Porquê tanto sofrimento dos justos e dos inocentes? Estas questões, tão antigas como a humanidade, surgem igualmente na Bíblia, principalmente no livro de Job, um texto tardio do Antigo Testamento que pode datar do século IV a.C. O livro de Job oferece ao tema universal do sofrimento do justo uma ênfase particular. Porque o povo de Israel se encontra unido a Deus por uma aliança, respondeu com uma promessa de fidelidade ao compromisso irrevogável do seu Deus. Porém, eis que o Deus de Israel, o Deus da aliança, parece esquecer-se dos fiéis, ou mesmo causar-lhes sofrimento. E surge a questão: «Porquê ser fiel se isso não muda nada?»
Com grande delicadeza, o autor não aborda a questão frontalmente. Ao invés, discorre longamente, surpreendo os seus leitores com a narrativa da história de um estrangeiro, a história de Job, um «filho do Oriente». Mas não nos deixemos enganar. Apesar de ser estrangeiro, Job reflectirá, falará e agirá como um fiel Israelita. A sua história é uma parábola, uma reflexão surpreendentemente actual sobre a gratuitidade da fidelidade a Deus. Não dá resposta à razão do sofrimento, mas questiona-nos sobre a razão da nossa fé.
O primeiro capítulo começa por desenhar o retrato de Job no país de Uce, homem excepcional a todos os níveis. A sua integridade moral e piedade são totais. É um pai excepcional para os seus dez filhos. E a imensidão dos seus bens faz de si o homem era o mais importante de todos os homens do Oriente.
Do país de Uce, o relato conduz o leitor à sala do trono de Deus. É um dia de audiência. O senhor recebe a sua corte, «os filhos de Deus». Tratam-se dos seus ministros e servos, também chamados anjos ou mensageiros. Entre eles, encontra-se «Satanás». Não se trata exactamente do diabo. Corresponde, sobretudo, ao que nós chamaríamos de advogado, o «advogado do diabo», o acusador, o que coloca tudo em causa, o que procura a falha, mas que pode, também, ser alguém honroso. Na cena a que o livro de Job nos faz assistir, Satanás assemelha-se a um agente dos serviços de inteligência ou um jornalista de investigação, regressado há pouco de uma visita ao mundo terreno, onde recolheu imensa informação.
Dialogando com ele, Deus menciona Job. Deus possui incontáveis servos no céu, mas tem orgulho no seu servo Job. Sublinha perante Satanás que Job é único: «não há ninguém como ele na terra» - assim como não há ninguém como Deus no céu. Contudo, Satanás, um formidável advogado do diabo, responde que não possui assim tantas certezas, que é fácil para Job ser irrepreensível porque tudo na sua vida corre bem. Levanta a questão:
«Job teme Deus gratuitamente? Job ama Deus gratuitamente? Será que pode existir afecto a Deus sem se esperar nada em troca?»
Podemos perguntar-nos se não teria sido melhor não procurar uma resposta a qualquer preço. Pois o preço que Job vai pagar é enorme. Mas não é essa a pergunta que devemos fazer, é importante lermos a história como uma grande parábola que tem a sua própria lógica. Com uma ingenuidade aparente, ela conta como Deus se entusiasma com as qualidades excepcionais do seu servo Job. Face a Satanás – sério, crítico e desconfiado, como um adulto – Deus, com a sua candura, parece-se com uma criança.
Desafiado por Satanás, Deus mantém a sua confiança. Aposta que, aconteça o que acontecer, Job vai demonstrar a falsidade das insinuações de Satanás, que é a desconfiança em pessoa. Deus arrisca a sua honra na pessoa de Job. Job vai mostrar se Deus tinha razão em confiar ou se Deus tem que admitir a Satanás que a suspeição era fundamentada.
Sem que o saiba, Job dá razão a Deus e fecha a boca a Satanás. Testemunha que existe um afecto gratuito a Deus, um amor sem esperar nada em troca além de amar a Deus.
- Quem é, para mim, testemunha de uma fé autêntica?
- Porque será que Deus ama a fidelidade gratuita, o amor que não espera nada em troca?
- Por que razão procuro Deus, por que me afeiçoo a Deus?

segunda-feira, 16 de junho de 2014

sábado, 7 de junho de 2014

MEDITAÇÃO DO IRMÃO ALOIS


A fonte da esperança

Sábado 31 de Maio de 2014
Vários de entre nós, irmãos, acabámos de regressar de diversas visitas que realizámos na Primavera. Uns estiveram na Ucrânia, um outro na Rússia. No grave conflito que aí se desenrola neste momento, há em ambos os países mulheres e homens que ambicionam a paz.
Eu próprio estive, com outros irmãos, no México, para um encontro de 2000 jovens de diferentes países, onde tivemos uma vigília de oração no santuário da Virgem de Guadalupe, momento em que vários milhares de pessoas da cidade se juntarem a nós.
Alguns irmãos vão, também, deixar Taizé rumo ao Brasil e Bangladesh, onde vivem muito próximos dos mais pobres.

Aqui, em Taizé, em cada ano, por altura da festa da Ascensão, ficamos sempre admirados ao ver a nossa Igreja da Reconciliação encher-se desta forma. Os jovens vêm em grandes números, é uma verdadeira festa da Primavera. Então nós, irmãos, perguntamo-nos: porque vêm? O que procuram?
Quando coloco esta questão a um ou outro de entre vós, dou-me conta de que as respostas são variadas. Alguns dizem: encontrar outros jovens. Outros, pelo contrário: o silêncio. Outros respondem ainda: a oração comum com os cânticos que se prolongam pela noite. E recebo ainda muitas outras respostas.
Todas estas respostas, na sua diversidade, possuem algo em comum: todas revelam uma procura de esperança, para olhar o futuro com alegria e não com medo.
Nós, irmãos, encontramos igualmente neste caminho convosco e no acolhimento que tentamos oferecer-vos uma esperança que nos estimula, sobretudo quando vemos que, além da estadia aqui, procuram construir a vossa vida com base na confiança em Deus.
A fonte da esperança não está em nós. Não somos nós que a produzimos. Então, como receber a esperança? A festa que celebramos a partir de quinta-feira pode abrir em nós a fonte da esperança. Mas o que significa a Ascensão, este momento em que Cristo sobe ao céu?
Recorrendo a uma linguagem metafórica, a Bíblia deseja dizer: que a morte não tem a última palavra. Jesus morreu mas também ressuscitou, e alberga em si todos os que ama, toda a humanidade. Com ele, a nossa humanidade é acolhida em Deus.
Sim, Cristo, mesmo invisível, está perto de cada um de nós. O que nos inquieta em nós mesmos, ele carrega-o. Encarrega-se das nossas faltas. Ama apaixonadamente cada um. Abre-nos o caminho para estar com Deus para sempre. Cristo espera-nos.
Se todos nós, cada um e cada uma de entre nós, se pudéssemos, nestes dias, acolher de novo esta confiança no amor de Cristo.
As catástrofes e as ameaças que pendem sobre o planeta e sobre a humanidade, por mais reais que sejam, não são a verdade última. A nossa humanidade tem um futuro, para além dos limites que nos parecem intransponíveis, para além do sofrimento e da morte. E na nossa oração, mesmo que muito pobre, estamos já ligados a este outro plano.
Isto não é uma teoria, é uma realidade. É este o sentido da festa que celebramos estes dias. Para entrar nesta festa, para saborear a alegria e a esperança que faz nascer, não nos podemos contentar com palavras ou ideias. Devemos perguntar-nos: o que posso mudar na minha vida quotidiana para ser consistente com esta confiança de que Deus é amor?
Quando procuramos dar resposta a esta questão na nossa vida de todos os dias, independentemente da situação em que a encontramos, surge uma dinâmica, uma fonte brota em nós.

Esta noite, acolhemos um novo irmão na nossa comunidade, que vem da China. É uma imensa alegria para nós. Decidiu colocar a sua confiança em Cristo no centro da sua vida. Certamente que confiar não significa sentir sempre o amor de Deus, mas vivê-lo através da nossa vida fraternal.
Para nós, os irmãos, o essencial não é sermos bons organizadores de encontros de jovens. O essencial é sermos irmãos uns para os outros, cumprir a bondade de Jesus entre nós. A nossa grande diversidade torna esta vida de comunidade exigente, mas, ao mesmo tempo, plena de beleza.
No momento do vosso regresso a casa, quero encorajar-vos a tomar também uma decisão: como viver a bondade de Cristo no vosso meio, com os que vos estão próximos? Trata-se de recomeçar sempre sem desanimar.
A bondade de Cristo impele-nos a ir junto dos que sofrem, junto dos excluídos. Façam visitas para tocar de perto situações de precariedade que estão, talvez, muito próximas de vós. Alimentam tanto a nossa confiança em Deus. E então, compreendemos melhor as palavras de Cristo: «Eu estarei sempre convosco, até ao fim dos tempos.»

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A Ascensão, vitral do irmão Eric de Taizé