quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O ANO 2015 EM TAIZÉ


De 1940 a 2015…

O irmão Roger chegou à aldeia de Taizé em Agosto de 1940, no começo da Segunda Guerra Mundial. Com apenas 25 anos, lançou as fundações de uma comunidade que imaginava como uma parábola de comunhão, fermento de reconciliação na família humana:

«Penso que, desde a minha juventude, nunca perdi a intuição de que uma vida em comunidade pode ser um sinal de que Deus é amor; só amor. Pouco a pouco, crescia em mim a convicção de que era essencial criar uma comunidade de homens decididos a dar toda a sua vida e que procurassem sempre compreender-se mutuamente e reconciliar-se: uma comunidade onde a bondade de coração e a simplicidade estivessem no centro de tudo.»
Irmão Roger
Hoje, a Comunidade de Taizé reúne uma centena de irmãos, católicos e de diversas confissões protestantes, oriundos de cerca de trinta países.
O irmão Roger morreu dia 16 de Agosto de 2005, com 90 anos, morto por uma pessoa desequilibrada durante a oração da noite da Comunidade.
Durante todo o ano de 2015, a Comunidade celebra os 75 anos da sua fundação e convida todos a recordar o seu fundador, 100 anos após o seu nascimento e 10 anos passados sobre a sua morte.
Para preparar o ano 2015, o irmão Alois, que sucedeu ao irmão Roger como prior da Comunidade, sugeriu um percurso de três anos. Este percurso procura ajudar a renovar, à luz do Evangelho, o nosso empenho na solidariedade humana.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Testemunho de Taize 2014.

A pedido de várias famílias.
Testemunho de Taize 2014. Primeira vez no meio das montanhas.
Ora, tudo começou como muitos inícios de história de muita gente que vai. Sei lá o que vai acontecer! Fui, segundo a Filomena, de "coração aberto". Um rapaz, no meio de muitos outras pessoas, a procura de algo. Em retrospectiva, fui sem expectativas e talvez por isso venho a abarrotar. Já lá vamos.
Tudo começou na aldeia. Jovens que não sabiam o que fazer. Onde já se viu. "Vamos jogar a aldeia, alinham?" Disse eu. E eles anuíram e estava dado o primeiro passo. Os primeiros amiguinhos. Era o narrador. A minha primeira designação. O narrador. Entretanto, chegados a Taize. Primeira inquietação: onde vou dormir e onde se come. Looool. Mas fico estupefacto com o que havia a minha volta. Natureza em estado puro. Respirei pela primeira vez a calma, a serenidade de tudo e contemplei a beleza. Sem que me apercebesse, o tempo parou naquele momento. 0.00. Um novo começo. Tela em branco. A partir dai, como por isto em palavras? Não sei bem mas darei o melhor. Taize e a prova de que e possível se estiveres aberto a amar e sobretudo disponível a receber. Todos nós, e quase invariavelmente, procuramos algum sentido na nossa vida. Nascemos, crescemos e morremos. No meio disto tudo, experienciamos e e nos dado a conhecer várias realidades mas tudo isto só faz sentido se o fizermos em comunidade. Primeira aprendizagem. Por vezes, sabemos isso mas lá temos a consciência de que e possível a experiência. E com isso, epifinamos. Só fazemos sentido se procurarmos nos outros o sentido da nossa vida. Ninguém pode viver isolado. Melhor, ninguém vive no isolamento porque não se põe na brasa da vida. No contacto com os outros e que nos ficamos a conhecer melhor porque nos testamos no processo. Mas isso requer algo. Coragem de viver e de ir ao encontro dos outros. Temos de arriscar se queremos abraçar a vida no seu todo. E porque Deus nos deu a liberdade de amar e sonhar segundo a vontade de cada um, o processo e igualmente singular. Cada um tem e percorre o seu caminho e porque se respeitar a diferença na unidade, então comunidade e outros não só fazem parte da vida como são imperativos para nos conhecer e procurarmos aquilo que representamos no mundo.atreve-te a viver caramba. Não vivas adormecido. Mais vale cair e doer do que não saber. Da a ti mesmo a oportunidade de fazer descobertas. E com alguma sorte, até epifanizas e ficas a saber um pouco mais de ti. Trai-te a ti mesmo se isso te libertar. Retira da equacao aquilo que te retrai e acrescenta o que te move. Porque trair e sair da fila e partir para o desconhecido. Espero que gostes de dançar, porque quando quando abres a porta por onde a alma sai e se liberta... Atreve-te.
Segunda aprendizagem. Simplicidade. Adorei tudo o que via. Pode parecer clichê e mais um que anda para aqui a fazer utopia, mas aquele lugar tornamos-nos mais sensiveis ao que nos envolve. E de alguma forma, confirmamos que somos mais do que a nossa própria realidade. Formas, cores, aromas. E tudo isto e natural. Natural e simples. Não e preciso saber mais. Aprendi com isto que se não racionalizarmos, as vezes vemos as coisas de outro prisma. Damos voltas de vários graus mas por mais pequena que seja, mudamos algo. No que me respeita, voltei ao básico. Back to basics. E com isso, dei umas valentes cambalhotas. Estou a assimilar ainda o que isso significa. Ou então não. Vamos ver no que da 
Agora o que ficou no fim? Não vos contarei toda a experiência, há pessoas e momentos que nos marcaram de formas que transcendem a forma como percebemos e percepcionamos. Mas sabemos que operaram em nos porque me tocaram. De qualquer forma, agradeço tudo e todos que ficaram na foto no fim. A todos os que me acompanharam, obrigado por me acolherem nos vossos braços mesmo quando não vos chamava. Em braços de muitos, chorei em pranto. E não me incomoda partilha-lo, sou humano e humanista e da mesma forma que rimos, zangamos, também choramos e não devemos esconder. Tudo faz parte da experiência humana. Abraça tudo. Nao és menor e nao tira nada, acrescenta se tiveres disposto a receber. E a maior aprendizagem de todas. Aprender a receber. Agradeço a comida de guerra que comemos. Agradeço os momentos de oração em comunidade, por todos aqueles que acompanharam nesta jornada, faces que procuravam, que oravam, que amavam, que iluminavam os outros. Cada um de nos e luz de si e dos outros. Somos os outros elevado ao quadrado e os outros raiz quadrada de nos. Agradeço a nova vida que em mim nasceu. Por fim, agradeço a minha família. Eles sim, são o derradeiro amor, confirmação e luz. Já escrevi de mais. O essencial ficou. Há mais que ficou. Mas dou vos a palavra também.
Ah outra coisa, reganhei algum brilho nos olhos. Foi o que de melhor ganhei. Olhos que brilham e que acreditam.
Sim, estou mais parvo do que e costume, mas até e uma parvoíce fixe. Sou portanto mais do que aquilo que era.
Neste momento, prometo, eu sou infinito. Sim, porque quem busca o infinito, só tem de fechar os olhos.

Vitor Teixeira

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Os jovens e a oração em Taizé


Um dos irmãos reflecte sobre a participação dos jovens na oração em Taizé e sublinha três dimensões da oração que lhe parecem ecoar na procura dos jovens.
Três vezes por dia, pára tudo na colina de Taizé: o trabalho, os estudos bíblicos e as partilhas em pequenos grupos. Os sinos chamam toda a gente para rezar na igreja. Centenas, por vezes milhares de jovens de diversos países do mundo, rezam e cantam com os irmãos da Comunidade. Os cânticos, entoados repetidamente, entram facilmente na memória e traduzem, em poucas palavras, uma realidade fundamental. Seguidamente, um texto bíblico é lido em várias línguas. No centro de cada oração comunitária, um longo período de silêncio é um momento único de encontro com Deus.

Nós, os irmãos, ficamos muitas vezes admirados com a capacidade demonstrada pelos jovens ao ficarem na nossa igreja, por vezes durante horas, em silêncio ou entoando cânticos meditativos. Frequentemente, até os próprios jovens se surpreendem com o quanto rezam em Taizé. Quando perguntamos aos grupos que encontramos no fim da sua estada aquilo que mais os marcou, a resposta é rápida e sem hesitação: «a oração!» E, contudo, muitos daqueles que falam de forma tão entusiasta da sua experiência de oração parecem ser, à primeira vista, os neófitos. Isso é o mais impressionante.

Nós próprios, mais uma vez, ficamos surpreendidos com isso. O que poderá ajudar os jovens a permanecerem verdadeiramente abertos a um diálogo interior na oração? Como os poderemos ajudar a descobrir que, mesmo sem saberem rezar, mesmo sem saber o que pedir ou o que esperar, Deus já deposita em nós uma espera de comunhão?

Ainda que não possa responder exactamente a estas questões, posso, com efeito, sublinhar três dimensões da oração em Taizé, que me parecem ecoar na procura dos jovens: trata-se de uma oração acessível, meditativa e feita a partir do coração.


Uma oração acessível
A oração da Comunidade modificou-se muito ao longo dos tempos e caminhou no sentido de uma simplificação. O irmão Roger estava constantemente atento para que nada na oração comunitária parecesse inacessível. Para ele, ler um texto muito longo ou com vocabulário muito complicado poderia dificultar esta relação de amor que a presença do Espírito Santo oferece na oração.

A exigência de tornar a experiência interior acessível a um grande número de pessoas explica esta maneira de rezar com cânticos simples e meditativos. Não que tudo tenha sido adaptado para os jovens. Os cânticos de Taizé, em si, não são canções ao estilo dos jovens. Creio que são cânticos enraizados na tradição monástica, com o vocabulário dos salmos e veiculados por uma longa tradição de oração cantada, que começa no seio das primeiras comunidades de Israel. Destaca-se, fundamentalmente, pelo seu carácter meditativo e repetitivo. No fundo, a Comunidade começou a cantar os salmos e continua actualmente a fazê-lo. Mas, mais do que entoar todo o salmo, ficamos num versículo, meditamo-lo em conjunto e deixamo-lo ressoar e encontrar em nós as experiências que iluminará.

Aquilo que toca os jovens em Taizé talvez seja o facto de sentirem que nos esforçamos por transmitir, de uma forma muito simples, uma expressão da Fé, sem no entanto a aplanar ou colorir. Eles sentem efectivamente que a oração que lhes é proposta não é apenas a tradução na sua língua de uma realidade que lhes é estranha, mas é, essencialmente, um convite a uma procura que os afasta de si próprios, colocando na sua boca palavras de outros tempos, que os obriga gentilmente a descentrarem-se de si próprios, num despojamento total. Os jovens sentem isso de uma forma especial. Distinguem facilmente os discursos cheios de si próprios daqueles que criam espaço ao pôr de lado algumas certezas. Talvez sintam que, enquanto Comunidade e adaptando a nossa oração à sua presença, quisemos alargar o nosso caminho, estendendo a todos a intimidade que desejamos viver com Deus. Por isso, é importante que o cântico seja entoado continuamente por todos e não apenas pelos solistas ou coralistas, que deixariam apenas o refrão para a assembleia.


Uma oração meditativa
A oração com os cânticos de Taizé também é uma meditação bíblica. No dia de Todos os Santos, fiquei muito surpreendido quando, na nossa igreja cheia de estudantes de escolas secundárias francesas, 2500 jovens cantavam: «Que eu exulte e rejubile no teu amor!» Trata-se da letra de um dos últimos cânticos escritos em francês. Creio que, através da repetição de um ou dois versículos, o canto lhes dá acesso directo à palavra de Deus e lhes permite interiorizar, incorporar a beleza e mesmo a «aspereza» das palavras bíblicas. E, posteriormente, ao lerem as palavras que já conhecem de cor, alguns textos são iluminados por uma luz inesperada.

Por vezes pergunto-me se a nossa maneira de cantar não é como que uma breve introdução à «lectio divina», a essa leitura atenta da palavra, que abre espaço para deixar ressoar o texto em todas as suas dimensões. Os judeus falam em ruminar a Torah. Um dos rabinos citados numa recolha de textos judaicos dos primeiros séculos depois de Cristo diz: «Vira e revira a Torah em todos os sentidos, pois ela encerra todos os ensinamentos: apenas ela te dará a verdadeira sabedoria. Concentra-te neste estudo e nunca o abandones. Não saberás fazer nada melhor.» (Mishna Abot 5, 25). Em Taizé, a repetição dos cânticos faz eco neste ruminar, nesta respiração da Palavra.


Uma oração do coração
Um outro aspecto que me sensibiliza bastante, quando oiço os jovens falar da oração, é a possibilidade que o longo momento de silêncio, a meio da liturgia, lhes dá uma ocasião para se concentrarem no que de mais profundo os habita: «fazer um balanço», «escutar o coração», «reflectir sobre os seus problemas», «esvaziar a mente», «fazer uma pausa», «fazer uma retrospectiva de si mesmos», «deixar cair as máscaras»... eles sabem bem descrever o que o silêncio lhes permite fazer. Rezando juntos, o silêncio não os assusta. Pelo contrário, são muitos os dizem que, na primeira vez, os dez minutos parecem muito longos, mas depois «voam».

Pergunto-me se o que eles tentam exprimir não corresponde àquilo que o Oriente cristão chamou a «oração do coração» e também «manter-se vigilante com o coração»: «Vela com todo o cuidado sobre o teu coração», diz o livro dos Provérbios, «porque dele procedem as fontes da vida.» (Pr 4,23)

O coração é, na Bíblia, o centro da pessoa humana, um ponto fulcral para onde convergem todas as energias. Para os monges da tradição oriental, a oração com a repetição de uma curta frase, sob o ritmo da respiração, é a oração do coração. Ou seja, trata-se do esforço de unificação de todas as energias, para as fazer passar pelo fogo do coração num cadinho do amor. Unificando os sentimentos e as energias, do coração brota uma intenção recta, como uma água purificada. A oração como vigilância, despertar e escuta permite uma concentração, re-centrando os próprios desejos para os sincronizar com o amor. A oração é esta preparação do coração à vigilância que o amor exige em diversas situações.

Através do canto e do silêncio, os jovens descobrem que são capazes de renovar o seu coração; de um coração simples, no sentido original da palavra, um coração sem «dobras», um coração aberto. Os primeiros cristãos falavam da oração como um força para fazer derreter a «gordura espiritual» que pesa nos nossos pensamentos e desejos. A imagem das dobras é igualmente sugestiva: um coração sem dobras é um coração despojado do supérfluo e atento ao essencial dos seus desejos, para dessa forma descobrir claramente como Deus o chama a ser criador. «Todo o desejo que, dentro de nós, se dirige a Deus, constitui desde logo uma oração. O teu simples desejo já é oração. Há uma oração interior que nunca se cala: o teu desejo. Se queres rezar, nunca pares de desejar.» É o comentário de Santo Agostinho ao Salmo 37.

Sem entraves, aberto a uma certa transparência, o coração aprende a amadurecer decisões e intuições, a definir as linhas de um modo de vida. E a discernir também situações delicadas e impasses. É nesse sentido que eu espero que os jovens compreendam que «a oração não nos afasta das preocupações do mundo. Pelo contrário, não há nada de mais responsável que a oração: quanto mais vivermos de uma oração muito simples e humilde, mais somos levados a amar e a expressar esse amor através da nossa vida.» Um futuro de Paz, irmão Roger, Carta de 2005.

Por estas três dimensões da oração que tentamos partilhar com os jovens, «despojamento» de si próprios, «ruminar» da Escritura e «escuta vigilante» do coração, nós gostaríamos muito de lhes tornar perceptível a certeza que o irmão Roger nos deixou na sua última carta por acabar: «Deus acompanha-nos mesmo na nossa solidão mais insondável. Ele diz a cada um de nós: ‘És precioso aos meus olhos, eu estimo-te e amo-te.’ Sim, Deus só pode dar o seu amor, aí se encontra todo o Evangelho.»

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Notícias das pequenas fraternidades provisórias

«É difícil acreditar que já passou mais de metade do tempo da nossa estadia no Porto. Sentimo-nos abençoadas por encontrar pessoas entre os 2 e os 87 anos que parecem estar verdadeiramente felizes por nós aqui estarmos, mesmo se na verdade é um privilégio para nós poder ver um pouco do mundo através do olhar delas.
 
Temos a impressão que as pessoas se sentem tocadas pela nossa decisão de deixar por um tempo as nossas vidas quotidianas para conhecermos esta paróquia e este bairro, para vivermos e rezarmos com eles de forma um pouco especial, para interagirmos aonde legiões de turistas passam sem parar e para descobrirmos o quanto têm para dar e partilhar aqueles que são materialmente desfavorecidos.
 
Mesmo se a barreira da língua é por vezes um desafio, com muitos erros de gramática e algumas frases em «portunhol», a linguagem do amor, do serviço e da dedicação parece ser bastante apreciada.
 
Temos a sorte de estar envolvidas em diferentes áreas de trabalho do centro social da paróquia. Acompanhamos as crianças mais novas ao parque infantil e verificamos que, com a excitação e o entusiamo, não se esquecem de guardar o chapéu na cabeça. Apoiamos o trabalho com os sem-abrigo (um deles falou-nos do gosto que tem em tocar guitarra e nós fizemo-lo descobrir os cânticos de Taizé, que ele muito aprecia!) Fazemos ginástica com pessoas de idade e acompanhamos algumas velhinhas adoráveis, que têm dificuldade a andar, a ir tomar café ou a visitar familiares.
 
E também organizamos três orações por dia: uma para nós as três, de manhã, outra mais breve ao meio-dia, com as pessoas com quem trabalhamos, e uma ao fim da tarde na igreja de São José das Taipas, onde vêm pessoas da paróquia mas também de outras zonas do Porto que parecem apreciar o facto de lhes trazermos um pouco de Taizé (com os ícones, os livros de cânticos, o ritmo de oração e, assim o esperamos, muitas outras coisas…)»
Jeanne, Judith e Yolanda, no Porto

domingo, 3 de agosto de 2014

A coragem de ser criador de paz

MEDITAÇÃO DO IRMÃO ALOIS

A coragem de ser criador de paz

Quinta-feira, 31 de Julho de 2014

Em cada semana deste Verão, nós, os irmãos, sentimo-nos felizes por acolher tantos jovens na nossa colina. A grande diversidade de países e a solidariedade que se cria entre todos suscitam uma admiração constante.
Há uma imensa alegria que se manifesta entre vós. Contudo, sei que cada um e cada uma de vós carrega também um fardo. Para uns são sofrimentos pessoais, para outros um futuro que parece bloqueado, outros são habitados pela angústia dos conflitos, por vezes armados, que reinam nos seus países.
Na semana passada, esteve aqui presente um grupo de Palestinianos de Belém, partilhando connosco a sua pena. E esta semana, encontra-se entre nós uma mulher palestiniana.
Sentimo-nos também tocados por estarem connosco, cada semana, jovens ucranianos e, ao mesmo tempo, jovens russos. A uns e a outos, quero dizer: saibam que a vossa presença é importante pra nós e que, nos nossos corações, estamos muito próximos de todos vós.
É importante para nós cantar frequentemente, na oração comum, um cântico em eslavo eclesiástico, a língua litúrgica dos ortodoxos russos, e, também, cantar a versão ucraniana do cântico «Laudate Omnes Gentes», «Slavite vsi narodi».
Estar juntos, escutarmo-nos mutuamente, confirma em todos nós esta profunda convicção: em todos os países existem homens e mulheres de paz.
Reunimo-nos todos três vezes por dia para a oração comum. É Cristo que nos reúne e nos oferece a sua paz. Se não começamos por receber esta paz no nosso coração, como poderemos ser criadores de paz ao nosso redor?
Se não acolhemos a paz de Deus, será possível que as feridas, por vezes terríveis, sejam curadas? Penso nas crianças feridas ou mesmo mortas, nos incontáveis refugiados em todo o mundo.
Incansavelmente, Cristo Ressuscitado que, sozinho, venceu o ódio, a violência e a morte, Cristo Ressuscitado diz-nos: «A paz esteja convosco». É ele a nossa consolação. É ele que nos comunica a coragem de sermos criadores de paz. «Felizes os pacificados, porque serão chamados filhos de Deus», diz também Jesus.
Escutar Cristo conduz-nos à escuta dos outros. Para sermos criadores de paz, tomemos o tempo de compreender o ponto de vista dos outros. Assim, os nossos olhos abrir-se-ão para ver sinais de esperança, mesmo em situações difíceis. E somos impelidos a colocarmo-nos próximos dos que atravessam provações. 
Fazer a paz começa nas nossas relações de todos os dias com os que nos estão próximo. Somente podemos almejar ser artesãos da paz na sociedade e nos graves conflitos de hoje em dia se o somos, à partida, nas relações com os que nos rodeiam.
Desejo imensamente que todos vós que vieram em peregrinação a Taizé possam aqui depositar uma porção dos vossos fardos, os fardos pessoais ou os do vosso país. E que possam acolher em vós a paz de Cristo.
Amanhã, ao serão, teremos a oração à volta da cruz, que nos recorda que Cristo aceita carregar tudo. Foi para isso que veio. O Evangelho diz-nos que ele é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
As situações inextrincáveis de ódio e violência que vemos no mundo não são um apelo a aprofundar a nossa confiança em Cristo? Não é nesta profundidade que devemos colocar a coragem de nos tornarmos mulheres e homens de paz?
Sem esta confiança sempre renovada em Cristo, não será possível interromper a espiral de violência que se alimenta de argumentos realmente ou aparentemente justos. É esta confiança em Cristo que nos permite acreditar que as reconciliações são possíveis.
Esta sexta-feira, dia 1 de Agosto, às 16h, um sino soará durante três minutos. O mesmo acontecerá em todas as cidades e aldeias de França. Trata-se do centésimo aniversário do início da Primeira Guerra Mundial em 1914. Durante o tempo que soar o sino, onde quer que estejamos, interromperemos a nossa actividade para permanecer em silêncio e rezar pela paz.
Entre nós, encontra-se uma mulher verdadeiramente comprometida num trabalho de solidariedade com refugiados na Europa. Chama-se Amaya e viveu largos anos no Camboja. De momento, trabalha no Serviço Jesuíta a Refugiados em Roma. Dir-nos-á algumas palavras. Antes, uma criança, Julie, dirá o nome dos povos que se encontram aqui esta noite e as crianças distribuirão flores.

Temos flores para os oriundos do Chile, Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Porto Rico, México, Estados Unidos e Canadá.
Para os da Nova Zelândia e Austrália.
Para os da Rússia, Finlândia, Suécia, Dinamarca e Noruega.
Para os da Bielorrússia, Letónia, Lituânia, Polónia, Alemanha, Holanda, Bélgico, Reino Unido e Irlanda.
Para os da Ucrânia, Eslováquia, Hungria, Áustria, República Checa, Eslovénia, Suíça e França.
Para os da Roménia, Sérvia, Croácia, Bósnia-Herzegóvina, Grécia, Itália, Espanha e Portugal.
Para os da Coreia, Japão, China, Hong Kong, Taiwan, Camboja, Vietname, Indonésia, Timor Leste, Índia, Bangladesh, Líbano, Palestina e Turquia.
Para os de Madagáscar, África do Sul, Burundi, Tanzânia, Quénia, Uganda, Chade, Benim, Burquina Faso, Gana, Togo e os oriundos do Egipto.

Irmão Alois: Esta noite, ao prosseguirmos a oração com os cânticos, rezaremos por todos os refugiados espalhados pelo mundo, pelos que morrem no mar, pelas vítimas de conflitos armados ou de catástrofes naturais, e ainda pelos que são perseguidos. E escutamos Amaya:
Amaya: Tenho um amigo em Damasco, na Síria. Todos os dias, ele ouve os bombardeamentos no caminho para o trabalho. Diz-nos: «Se os cristãos desaparecerem do Médio Oriente, será como se desaparecesse uma fonte de água viva. Poderá modificar a identidade do cristianismo no mundo inteiro.»
Perante tais desafios, como podemos manter a esperança? Em Alep, jovens cristãos e muçulmanos trabalham juntos para levar alimento às famílias em dificuldade. Este serviço em conjunto dá um forte sinal de que a reconciliação é possível.
O meu amigo sírio guarda, igualmente, viva a esperança de que a paz na Síria é possível. Quando nos sentimos tentados a abandonar a esperança, a sua alimenta a nossa.
JPEG - 27.5 kb