terça-feira, 29 de julho de 2014

Uma «pequena fraternidade provisória» no Porto

VERÃO DE 2014

Uma «pequena fraternidade provisória» no Porto

De 21 de Julho a 15 de Agosto, três jovens estão a fazer a experiência de viver numa «pequena fraternidade provisória» no Porto.
A paróquia de Nossa Senhora da Vitória acolheu o desafio da Comunidade de Taizé para receber uma «pequena fraternidade provisória». A Jeanne, a Judith e a Yolanda, de nacionalidades respectivamente francesa, alemã e espanhola, estão a fazer voluntariado no centro social da paróquia, numa vida de partilha e simplicidade ritmada por três orações comunitárias diárias.
De segunda a sexta-feira às 18h30, a oração é aberta a todos os que querem participar, na Igreja de São José das Taipas.
Quando têm disponibilidade, as jovens participam também em actividades juvenis noutras paróquias. Sexta-feira 25 de Julho puderam participar numa oração em Espinho, na praia:
Estas «pequenas fraternidades provisórias» inserem-se no programa que a Comunidade propõe para celebrar os 75 anos da sua fundação e o centenário do nascimento do seu fundador, o irmão Roger. São etapas da preparação do «Encontro por uma nova solidariedade», que terá lugar em Taizé de 9 a 16 de Agosto de 2015.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Novidades

fr. Roger
Não pressentes a felicidade?


Pressens-tu un bonheur? in Portuguese
Paulinas Editora, Portugal, 2014, 104 p, ISBN: 9789896733919
O Irmão Roger chegava sozinho, em 1940, à pequena aldeia de Taizé. Tinha apenas 25 anos. Sessenta e cinco anos mais tarde, o fundador da Comunidade de Taizé descreve aqui algumas etapas do seu itinerário e da sua reflexão, desde lembranças da infância até ao seu encontro com a Madre Teresa, passando pelos contactos que teve com os papas João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, as suas visitas aos países da Europa de Leste durante a Guerra Fria, as vivências entre os deserdados dos países do Sul e o acolhimento dos jovens em Taizé. A sua meditação lembra as inúmeras diligências para estabelecer sinais de comunhão e de paz, particularmente nos lugares de fratura da humanidade.

Senhor, eu confio no teu amor


Seeds of Trust in Brazilian Portuguese
Paulinas Brasil, 2013, 240 p, ISBN: 9788535634617
O objetivo deste livro é favorecer o crescimento de nossa confiança em Deus e em seu amor, superando esses entraves através de uma caminhada que vai desde a descoberta de um amor maior do que tudo que se possa imaginar, passando pelas fontes libertadoras do perdão e pelas veredas da cura interior, até reencontrar as raízes da esperança de modo a seguirmos com discernimento e aprendermos a amar sempre mais intensamente. Além do texto bíblico, cada uma das breves meditações é acompanhada de perguntas para a reflexão, de um canto da comunidade de Taizé e de uma oração escrita por Irmão Roger.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Pequenas fraternidades provisórias

Notícias das pequenas fraternidades provisórias

Até ao Verão de 2015, pequenos grupos de jovens vivem em comunidade durante algumas semanas, no coração de um bairro ou de uma aldeia, para aí dar testemunho do Evangelho e partilhar as alegrias e as tristezas dos habitantes. A vida é ritmada por três orações comunitárias diárias, trabalho pastoral e social com as comunidades cristãs locais, visitas a pessoas isoladas ou em situação de sofrimento, animação de orações abertas a todos e de encontros de jovens.
Nesta página, actualizada regularmente, será possível acompanhar as notícias destas pequenas fraternidades provisórias.

A vida em Taizé: Relatos e testemunhos

2014

A vida em Taizé: Relatos e testemunhos

Ao longo de 2014, esta página será actualizada regularmente com notícias da vida na colina.

Junho: Começam os grandes encontros de Verão

Desde meados de Junho, o número de jovens acolhidos em Taizé tem aumentado regularmente, de semana em semana. Os encontros são bastante internacionais, marcados por uma grande diversidade de origens. Voluntários de todo o mundo também têm chegado nestas últimas semanas. Há novos ateliês propostos este Verão, alguns deles animados por pessoas que passam por Taizé. Entre elas, Christoph Benn, do Fundo Mundial de Luta contra a SIDA, o eurodeputado Philippe Lamberts ou médicos da região à volta de Taizé. O bispo emérito de Argel, D. Teissier, falou sobre diálogo inter-religioso.
Entre as visitas de representantes das Igrejas, notou-se a presença do Presidente da Igreja Metodista do Benim, vários delegados de pastoral juvenil de países africanos, o arcebispo de Dijon (França), o bispo de Magdeburg (Alemanha), vários bispos da Igreja de Inglaterra, cinco padres ortodoxos da Bielorrússia, que acompanhavam um grupo de jovens.

Simon (Allemagne)
Participei no grupo de reflexão sobre a nova solidariedade durante a minha semana em Taizé. Para mim, foi uma experiência muito gratificante e continuo agora a viver destas reflexões na «vida real». Na outra visita que tinha feito a Taizé tinha corrido tudo bem, mas de regresso a casa deixou de haver orações comunitárias e introduções bíblicas, de forma que as «impressões de Taizé» não me pareciam aplicáveis à minha vida quotidiana. Desta vez, continuo a pensar muito na semana que passei em Taizé e nos temas abordados no grupo de reflexão. E parece-me que nalguns aspectos os meus hábitos começaram a mudar.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Opinião de Luís Sousa Lobo Ex Reitor da Univ. Nova de Lisboa 2004

OPINIAO

A experiência de Taizé

por
Luís sousa lobo
Engenheiro
Ex-reitor da Universidade Nova de Lisboa21 dezembro 2004

OPapa João Paulo II, quando visitou Taizé, deixou uma imagem «Passa-se por Taizé como por uma fonte. O viajante pára, mata a sede e prossegue a viagem». Mas o que há afinal de especial nessa comunidade, localizada numa pequeníssima aldeia da Borgonha, que desafia a lógica urbana e o ritmo trepidante da civilização moderna? Porque é que tantos jovens, ano após ano, década após década, geração após geração, continuam aos milhares a acorrer a Taizé, para uma semana de reflexão e vida em comum? E porque virão a Lisboa dentro de dias 40 mil jovens de toda a Europa, respondendo ao apelo da Comunidade de Taizé, para o Encontro Europeu?
Não é fácil responder em poucas palavras, mas vou procurar dar a minha explicação, de maneira sintética, recorrendo, por comodidade, a palavras-chave.
Acolhimento, sem proselitismo. Em Taizé há um sentido de acolhimento e de respeito pelos visitantes. Não há proselitismo; ninguém está a aproveitar para doutrinar. Pelo contrário, logo à chegada, são os visitantes que indicam o programa que querem escolher para marcar o ritmo dos seus dias em Taizé, que pode ir desde a participação em grupos de discussão, estudos bíblicos, encontros intercontinentais até ao retiro pessoal em silêncio. Neste caso podem pedir um acompanhamento de um irmão. Mas o programa é livre.
O único traço comum dos programas são os três momentos de oração em comum, de manhã, ao meio-dia e à noite. Mas também aí há, sobretudo, o apelo à reflexão pessoal - não há grandes homilias ou discursos apologéticos. Não faz parte da cultura de Taizé. O acolhimento em Taizé significa, sobretudo, um grande respeito por cada pessoa, pelo seu percurso de vida. Lançam-se pistas de reflexão, não se dão respostas, mas há uma grande disponibilidade para ajudar a encontrar respostas para cada um. É isto que observo sempre que visito Taizé e que acho o traço principal da sua cultura de acolhimento.
Sobriedade, bom gosto com simplicidade. Ao longo dos anos o espaço público em Taizé foi-se alargando e adaptando ao número crescente de visitantes. Hoje em dia, nas épocas altas (Páscoa e meses de Verão), os visitantes atingem os 6000 em cada semana, com chegada habitual ao domingo à tarde e partida no domingo seguinte pela manhã. Em Taizé, dentro e fora das casas, tudo é bonito e simples. Há uma harmonia que sabe bem. Na loja podem comprar-se lembranças de arte, de música, de peças de uso doméstico ou livros, em que o estilo simples de Taizé se reconhece em tudo. A comunidade não aceita doações nem heranças, e é com esta actividade que equilibra o orçamento.
Organização eficiente, mas quase invisível. Como é possível juntar 30 ou 40 mil jovens durante cinco dias numa cidade europeia sempre diferente, ou 6000 jovens com rotação semanal em Taizé, sem uma logística pesada e cara? O segredo é uma organização que se foi apurando ao longo dos anos, com a intermediação de voluntários, jovens que, em geral no final dos seus estudos, dão um tempo da sua vida para ajudar os outros através do acolhimento que se vive em Taizé. Além disso, entre cada revoada de visitantes, muitos jovens disponibilizam-se, enquadrados pelos referidos voluntários, para executarem as tarefas de apoio indispensáveis nas estruturas de alimentação, limpeza, apoio médico, etc. Esta capacidade de auto-organização fica em segundo plano, quase invisível, mas as condições de acolhimento e de apoio de todos ficam asseguradas. Tudo anda sobre rodas.
Ecumenismo prático, discreto. O sentido ecuménico é central nesta comunidade, pois constituiu o principal elemento motor para o fundador, o Irmão Roger, e o grupo que no final dos anos 40 se lhe juntou. Este ecumenismo surpreende os que põem ênfase nas diferenças entre as Igrejas cristãs. Os irmãos acabam por falar pouco de «ecumenismo», palavra talvez demasiado técnica, pondo o acento sobre a busca de caminhos de compreensão e de reconciliação nos locais onde cada um vive.
Os irmãos vêm de tradições cristãs diferentes, mas fazem os mesmos votos. Os visitantes pertencem também a tradições cristãs diferentes, ou a nenhuma, mas juntam-se com naturalidade na mesma liturgia, nas mesmas orações. Em Taizé fica óbvio que o que une as Igrejas cristãs é muitíssimo maior do que o que as divide. Ainda que o pouco que divide seja tantas vezes o que é «posto na lapela» como marca distintiva. Mas esse «clubismo» em Taizé quase desaparece. O estilo dos cânticos, a presença dos ícones, o apelo aos traços mais profundos da espiritualidade cristã constituem em Taizé uma plataforma em que todos os cristãos se sentem à-vontade - certamente com algum depuramento em relação às fórmulas a que estarão habituados. Mas essa é uma roupagem a que todos se adaptam sem dificuldades, e que acentua o sentido de universalidade e a esperança de mais paz para a Humanidade.
Sentido de Deus pelo silêncio interior. A busca de Deus ou do sentido da vida, em Taizé, é marcadamente pessoal, apesar de transparecer que a fé não é individualista, é para ser vivida com outros. Há, contudo, um grande respeito pelo outro, não havendo grandes sensacionalismos ou emoções públicas. Tudo se passa no silêncio e no coração de cada um. A liturgia e o lugar ajudam. Tudo simples e despojado. Cânticos simples e repetitivos, um pouco ao gosto das Igrejas orientais, que ajudam à reflexão interior, intercalados por períodos de silêncio longos, com durações impensáveis em qualquer das nossas celebrações - mas que é um elemento essencial no ritmo de Taizé. A procura de Deus e do sentido da vida faz-se no encontro de cada um consigo próprio, na reflexão e no silêncio, e nos encontros na partilha, na entreajuda, na descoberta de outras culturas, de outras vocações, de outras realidades. Com disponibilidade para ouvir, compreender, descobrir.
É talvez por tudo isto que, em muitas universidades nos EUA e diversos outros países, os jovens usam as «noites de oração» ao estilo de Taizé como a forma conveniente para trazer ao gosto pela vida interior os jovens que o desejem. A minha avaliação é que o espírito da Comunidade de Taizé vai muito para além da sua raiz ecuménica. Dá um exemplo da busca do sentido da vida, neste caso na perspectiva cristã, de uma forma em que o fanatismo não só não está presente como perde o sentido. A esperança no futuro e a paz encontraram em Taizé uma linguagem bastante universal.
Esta é uma contribuição inestimável no mundo de hoje. Entre os irmãos há ingleses e alemães, mas também indianos e coreanos. Há norte-americanos e canadianos, mas também dois portugueses. Estão lá presentes, a todo o tempo, os problemas do mundo. E a visão do mundo que Taizé transmite é uma visão solidária, de paz e de esperança.
Se a esperança é a marca da juventude, percebe-se porque é que tantos, sobretudo jovens, vão a Taizé «como se vai a uma fonte para matar a sede e prosseguir a caminhada».
Não sei se o meu retrato de Taizé ficou muito incompleto, esquemático ou redutor. O melhor mesmo, para quem não conheça, é experimentar. E a partir do próximo dia 28, durante cinco dias, Taizé está connosco em Lisboa - uma oportunidade rara.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Peregrinar com Taizé

Encontros em Taizé

«Ver tantos jovens na colina, juntos numa grande diversidade, é algo de muito festivo. Dá-nos a grande esperança de que é possível uma humanidade em paz.»
Irmão Alois, durante um encontro na igreja da Reconciliação

Textos bíblicos com comentário

Textos bíblicos com comentário

Estas meditações bíblicas são sugeridas como meio de procura de Deus no silêncio e na oração, mesmo no dia-a-dia. Consiste em reservar uma hora durante o dia para ler em silêncio o texto bíblico sugerido, acompanhado de um breve comentário e de algumas perguntas. Em seguida constituem-se pequenos grupos de 3 a 10 pessoas, para uma breve partilha do que cada um descobriu, integrando eventualmente um tempo de oração.
2014

Julho

Job 1,1-21: Acreditar em vão?
Havia, na terra de Uce, um homem chamado Job. Era um homem íntegro e recto, que temia a Deus e se afastava do mal. Tinha sete filhos e três filhas. Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas e uma grande quantidade de escravos. Este homem era o mais importante de todos os homens do Oriente. Os seus filhos costumavam ir, cada dia, à casa uns dos outros, para fazerem banquetes, e mandavam convidar as suas três irmãs para comerem e beberem com eles. Quando acabava a série dos dias de festim, Job mandava chamar os filhos para os purificar e, levantando-se na manhã seguinte, oferecia um holocausto por cada um deles, porque, dizia ele: «Talvez os meus filhos tenham pecado, ofendendo a Deus no seu coração.» Assim fazia Job todas as vezes. Um dia em que os filhos de Deus se apresentavam diante do Senhor, o acusador, Satanás, foi também junto com eles. O Senhor disse-lhe: «Donde vens tu?» Satanás respondeu: «Venho de dar uma volta ao mundo e percorrê-lo todo.» O Senhor disse-lhe: «Reparaste no meu servo Job? Não há ninguém como ele na terra: homem íntegro, recto, que teme a Deus e se afasta do mal.» Satanás respondeu ao Senhor: «Porventura Job teme a Deus desinteressadamente? Não rodeaste Tu com uma cerca protectora a sua pessoa, a sua casa e todos os seus bens? Abençoaste o trabalho das suas mãos, e os seus rebanhos cobrem toda a região. Mas se estenderes a tua mão e tocares nos seus bens, verás que te amaldiçoará, mesmo na tua frente.» Então, o Senhor disse a Satanás: «Pois bem, tudo o que ele possui deixo-o em teu poder, mas não estendas a tua mão contra a sua pessoa.» E Satanás saiu da presença do Senhor.
Ora, um dia em que os filhos e filhas de Job estavam à mesa, e bebiam vinho na casa do irmão mais velho, um mensageiro foi dizer a Job: «Os bois lavravam e as jumentas pastavam perto deles. De repente, apareceram os sabeus, roubaram tudo e passaram os servos a fio de espada. Só escapei eu para te trazer a notícia.» Estava ainda este a falar, quando chegou outro e disse: «Um fogo terrível caiu do céu; queimou e reduziu a cinzas ovelhas e pastores. Só escapei eu para te trazer a notícia.» Falava ainda este, e eis que chegou outro e disse: «Os caldeus, divididos em três grupos, lançaram-se sobre os camelos e levaram-nos, depois de terem passado os servos a fio de espada. Só eu consegui escapar, para te trazer a notícia.» Ainda este não acabara de falar, e eis que entrou outro e disse: «Os teus filhos e as tuas filhas estavam a comer e a beber vinho na casa do irmão mais velho quando, de repente, um furacão se levantou do outro lado do deserto e abalou os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens. Morreram todos. Só eu consegui escapar, para te trazer a notícia.» Então, Job levantou-se, rasgou as vestes e rapou a cabeça. Depois, prostrado por terra em adoração, disse: «Saí nu do ventre da minha mãe e nu voltarei para lá.
O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; bendito seja o nome do Senhor!» Em tudo isto, Job não cometeu pecado, nem proferiu contra Deus nenhuma insensatez. (Job 1, 1-21)
Porque sofremos? Porquê tanto sofrimento dos justos e dos inocentes? Estas questões, tão antigas como a humanidade, surgem igualmente na Bíblia, principalmente no livro de Job, um texto tardio do Antigo Testamento que pode datar do século IV a.C. O livro de Job oferece ao tema universal do sofrimento do justo uma ênfase particular. Porque o povo de Israel se encontra unido a Deus por uma aliança, respondeu com uma promessa de fidelidade ao compromisso irrevogável do seu Deus. Porém, eis que o Deus de Israel, o Deus da aliança, parece esquecer-se dos fiéis, ou mesmo causar-lhes sofrimento. E surge a questão: «Porquê ser fiel se isso não muda nada?»
Com grande delicadeza, o autor não aborda a questão frontalmente. Ao invés, discorre longamente, surpreendo os seus leitores com a narrativa da história de um estrangeiro, a história de Job, um «filho do Oriente». Mas não nos deixemos enganar. Apesar de ser estrangeiro, Job reflectirá, falará e agirá como um fiel Israelita. A sua história é uma parábola, uma reflexão surpreendentemente actual sobre a gratuitidade da fidelidade a Deus. Não dá resposta à razão do sofrimento, mas questiona-nos sobre a razão da nossa fé.
O primeiro capítulo começa por desenhar o retrato de Job no país de Uce, homem excepcional a todos os níveis. A sua integridade moral e piedade são totais. É um pai excepcional para os seus dez filhos. E a imensidão dos seus bens faz de si o homem era o mais importante de todos os homens do Oriente.
Do país de Uce, o relato conduz o leitor à sala do trono de Deus. É um dia de audiência. O senhor recebe a sua corte, «os filhos de Deus». Tratam-se dos seus ministros e servos, também chamados anjos ou mensageiros. Entre eles, encontra-se «Satanás». Não se trata exactamente do diabo. Corresponde, sobretudo, ao que nós chamaríamos de advogado, o «advogado do diabo», o acusador, o que coloca tudo em causa, o que procura a falha, mas que pode, também, ser alguém honroso. Na cena a que o livro de Job nos faz assistir, Satanás assemelha-se a um agente dos serviços de inteligência ou um jornalista de investigação, regressado há pouco de uma visita ao mundo terreno, onde recolheu imensa informação.
Dialogando com ele, Deus menciona Job. Deus possui incontáveis servos no céu, mas tem orgulho no seu servo Job. Sublinha perante Satanás que Job é único: «não há ninguém como ele na terra» - assim como não há ninguém como Deus no céu. Contudo, Satanás, um formidável advogado do diabo, responde que não possui assim tantas certezas, que é fácil para Job ser irrepreensível porque tudo na sua vida corre bem. Levanta a questão:
«Job teme Deus gratuitamente? Job ama Deus gratuitamente? Será que pode existir afecto a Deus sem se esperar nada em troca?»
Podemos perguntar-nos se não teria sido melhor não procurar uma resposta a qualquer preço. Pois o preço que Job vai pagar é enorme. Mas não é essa a pergunta que devemos fazer, é importante lermos a história como uma grande parábola que tem a sua própria lógica. Com uma ingenuidade aparente, ela conta como Deus se entusiasma com as qualidades excepcionais do seu servo Job. Face a Satanás – sério, crítico e desconfiado, como um adulto – Deus, com a sua candura, parece-se com uma criança.
Desafiado por Satanás, Deus mantém a sua confiança. Aposta que, aconteça o que acontecer, Job vai demonstrar a falsidade das insinuações de Satanás, que é a desconfiança em pessoa. Deus arrisca a sua honra na pessoa de Job. Job vai mostrar se Deus tinha razão em confiar ou se Deus tem que admitir a Satanás que a suspeição era fundamentada.
Sem que o saiba, Job dá razão a Deus e fecha a boca a Satanás. Testemunha que existe um afecto gratuito a Deus, um amor sem esperar nada em troca além de amar a Deus.
- Quem é, para mim, testemunha de uma fé autêntica?
- Porque será que Deus ama a fidelidade gratuita, o amor que não espera nada em troca?
- Por que razão procuro Deus, por que me afeiçoo a Deus?